Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vocifera contra as tarifas americanas, prometendo defender a soberania do país e reforçando sua aproximação com o Brics, o mercado brasileiro sente na pele o impacto do chamado “tarifaço”. A autorização do Itamaraty, nesta quinta-feira (28), para iniciar consulta sobre a Lei de Reciprocidade é um gesto simbólico que, na prática, pouco muda o cenário: meses podem se passar até que qualquer efeito seja sentido.
Nos bastidores, a diplomacia brasileira segue trabalhando silenciosamente para preservar relações comerciais essenciais com os Estados Unidos — o segundo maior parceiro do país, responsável por 12% da balança comercial. Enquanto Lula se apresenta como paladino do Brasil, chanceleres buscam negociações discretas, tentando remediar o que o discurso presidencial não consegue resolver.
O efeito do “tarifaço” foi imediato: Lula estreitou contatos com a China, buscando diversificar mercados e defendendo, inclusive, o uso de uma moeda alternativa ao dólar. Mas especialistas alertam que a realidade é dura: produtos manufaturados, como aço, alumínio, motores elétricos e aviões da Embraer, não encontram espaço nos parceiros do Brics. “O Brasil exporta para a China quase exclusivamente commodities; não há como substituir o mercado americano no curto prazo”, explica Vinícius Rodrigues, professor de Relações Internacionais.
Enquanto isso, pequenas e médias empresas tentam aproveitar brechas para exportar produtos premium, como café, sucos, açaí e cosméticos naturais, mas enfrentam barreiras regulatórias rigorosas. A diferença entre discurso e realidade evidencia uma contradição: Lula brava para ganhar capital político, mas a diplomacia precisa lidar com a realidade econômica imposta por Washington.
Mesmo com o estreitamento de relações com potências emergentes, o Brasil mantém cautela para não romper laços com potências tradicionais. A estratégia mostra que, no fim das contas, o país segue preso às regras de mercados muito maiores, e o protagonismo retórico do presidente não altera os fatos.
A lição é clara: bravatas políticas não substituem negociações estratégicas, nem protegem o Brasil das consequências econômicas de medidas externas. Lula pode discursar sobre soberania e multilateralismo, mas o “tarifaço” revela, na prática, quem dita as regras no comércio internacional — e não é o Brasil.
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*Com informações Gazeta do Povo