Mato Grosso do Sul Crise financeira
Justiça quebra sigilo da Santa Casa e crise milionária expõe bastidores sob pressão política
Com déficit de R$ 12 milhões por mês, hospital terá 30 dias para abrir contratos enquanto vereadores e Estado intensificam cobrança por transparência
20/03/2026 14h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Divulgação

A crise financeira da Santa Casa de Campo Grande ganhou um novo capítulo com forte impacto político e institucional. A Justiça determinou a quebra de sigilo de contratos firmados pela unidade desde 2023, em meio a um cenário de déficit milionário e sucessivas denúncias sobre a gestão da instituição.

A decisão foi proferida pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, atendendo a pedido do Instituto Artigo Quinto. A medida obriga a apresentação detalhada de contratos administrativos e privados, além de documentos financeiros completos da Santa Casa e da operadora Santa Casa Saúde Ltda.

O vereador Marquinhos Trad (PDT) afirmou que a decisão judicial é resultado de um acúmulo de problemas ao longo dos últimos anos. Segundo ele, a quebra de sigilo é necessária diante das dúvidas levantadas.

“Se há suspeitas, nada melhor que uma análise profunda e técnica sobre esses contratos”, declarou o parlamentar, ao defender maior transparência na gestão dos recursos.

Prazo e exigências rigorosas

A partir da intimação, a Santa Casa terá 30 dias para apresentar uma ampla lista de documentos. Entre eles estão contratos de gestão, consultorias, auditorias, fornecimento de serviços, além de notas fiscais, comprovantes de pagamento, transferências bancárias e registros contábeis.

A decisão também exige relatórios financeiros completos, incluindo fluxo de caixa, contas a pagar e receber, empréstimos, renegociações e operações extraordinárias realizadas desde janeiro de 2023.

Apesar da gravidade das determinações, a decisão ainda é de primeira instância e pode ser alvo de recurso.

Déficit milionário e colapso no atendimento

A investigação ocorre em meio a uma crise financeira considerada histórica. A Santa Casa acumula um déficit mensal de aproximadamente R$ 12 milhões, situação que tem impactado diretamente o atendimento à população.

Nos últimos anos, o hospital chegou a suspender o atendimento a novos pacientes em diversas ocasiões, devido à superlotação e à falta de profissionais. A instituição atribui parte da crise à defasagem nos repasses do poder público e tem pressionado por mais recursos para manter os serviços do SUS.

Diante do cenário, foi criado um grupo de trabalho envolvendo a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria Estadual de Saúde para analisar as contas e tentar construir um acordo financeiro.

Além disso, o Governo do Estado determinou, em fevereiro, uma auditoria especial nas contas da instituição, conduzida pela Controladoria-Geral do Estado em conjunto com a Secretaria Estadual de Saúde.

Conflitos e denúncias ampliam tensão

A crise também ganhou contornos jurídicos e políticos após um embate envolvendo o presidente do Instituto Artigo Quinto, Oswaldo Meza, e a presidente da Santa Casa, Alir Terra.

Em janeiro de 2026, Alir Terra registrou boletim de ocorrência após a divulgação de um vídeo nas redes sociais em que Meza faz acusações contra a gestão do hospital. Segundo a presidente, as declarações não foram acompanhadas de provas e ultrapassam o direito à crítica.

“As acusações atingem a credibilidade da instituição e minha honra pessoal e profissional”, afirmou.

Pressão política e futuro incerto

Com a quebra de sigilo, auditorias em andamento e disputas públicas, a Santa Casa passa a ser o centro de uma crise que mistura saúde, política e gestão de recursos públicos.

Enquanto isso, cresce a pressão de autoridades e da sociedade por respostas concretas. A expectativa é que a abertura dos contratos e documentos financeiros possa esclarecer suspeitas, mas também expor ainda mais fragilidades na administração do principal hospital de Mato Grosso do Sul.

O desfecho do caso pode redefinir não apenas o futuro da instituição, mas também o cenário político local, já que o tema ganhou forte repercussão entre lideranças e eleitores