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Riedel transforma COP15 em palanque e cobra Lula por obras bilionárias enquanto vende MS como potência sustentável
Entre discurso ambiental e pressão por infraestrutura, governador usa evento global para destravar recursos e expõe dependência da União
23/03/2026 15h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

A COP15 em Campo Grande escancarou mais do que o debate ambiental global — revelou também o uso político estratégico do evento. Enquanto o discurso oficial girava em torno da proteção da fauna e da biodiversidade, o governador Eduardo Riedel aproveitou a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para pressionar diretamente por obras e investimentos considerados vitais para Mato Grosso do Sul.

Nos bastidores da conferência, Riedel elevou o tom e levou à mesa temas que vão muito além da pauta ambiental — como a Rota Bioceânica, financiamento internacional e concessões rodoviárias. A estratégia foi clara: usar o palco global da COP15 para destravar gargalos históricos de infraestrutura.

COP vira vitrine — e ferramenta de pressão

Durante a abertura oficial, o governador tentou consolidar a imagem de um Estado que cresce aliado à sustentabilidade, defendendo que Mato Grosso do Sul está no caminho da “prosperidade com preservação”.

Mas, longe dos discursos, a conversa com Lula teve outro foco.

Riedel cobrou garantias para a continuidade da Rota Bioceânica, especialmente no acesso à ponte sobre o Rio Paraguai, em Porto Murtinho. A preocupação é direta: o risco de a obra ficar pronta sem ligação viária adequada do lado brasileiro — um cenário que transformaria um projeto estratégico em símbolo de desperdício.

Dinheiro travado e dependência de Brasília

Outro ponto sensível levado ao presidente foi a liberação de um empréstimo internacional de US$ 200 milhões para obras no Vale do Ivinhema. O recurso ainda depende de trâmites na Casa Civil e aprovação no Senado — um entrave burocrático que evidencia a dependência do Estado em relação ao governo federal.

Segundo Riedel, Lula se comprometeu a verificar a situação do processo, que aguarda apenas um avanço administrativo para seguir ao Banco Mundial.

Além disso, o governador reforçou a necessidade de investimentos em rodovias e destacou a concessão da chamada “Rota da Celulose”, considerada peça-chave para sustentar o crescimento industrial do Estado.

Sustentabilidade como discurso — infraestrutura como prioridade

Apesar do foco oficial da COP15 ser a preservação das espécies migratórias, o movimento do governo estadual deixa claro que a prioridade vai além do meio ambiente.

Riedel tenta vender Mato Grosso do Sul como modelo de economia verde, destacando recuperação de áreas degradadas e investimentos em energia limpa. Ao mesmo tempo, atua nos bastidores para garantir logística, crédito e obras estruturantes que sustentem o crescimento econômico.

A equação é delicada: equilibrar preservação ambiental com expansão agroindustrial — um desafio que ainda divide especialistas e pressiona governos.

Protagonismo com cobrança internacional

Ao sediar a COP15, o Estado ganha visibilidade global e entra no radar de investidores e organismos internacionais. Mas o protagonismo vem acompanhado de um peso político inevitável: a cobrança por resultados reais.

Enquanto líderes discutem a crise das espécies migratórias — com quase metade das populações em declínio —, Mato Grosso do Sul se apresenta como solução. O problema é que essa narrativa agora será testada na prática.

Entre discurso e realidade

A COP15 colocou Mato Grosso do Sul no centro do debate mundial. Mas também revelou uma verdade incômoda: por trás do discurso ambiental, a engrenagem política continua girando movida por interesses econômicos, obras e articulações de poder.

Riedel saiu do evento com uma promessa de visibilidade global — e com uma cobrança direta sobre Brasília.

Agora, resta saber se o Estado conseguirá transformar discurso em entrega. Ou se a COP15 ficará marcada apenas como um grande palco político travestido de agenda ambiental.