Política Estratégias
Janela partidária expõe guerra interna no PL e redesenha forças políticas em MS
Disputa pelo Senado vira cabo de guerra entre lideranças e Bolsonaro, enquanto partidos crescem, encolhem e mudam o rumo das eleições de 2026
06/04/2026 13h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

O fim da janela partidária em Mato Grosso do Sul escancarou um cenário de intensa disputa política, alianças estratégicas e incertezas que devem marcar o caminho até as eleições de 2026. Longe de trazer definições, o período revelou um tabuleiro em ebulição, com pré-candidatos pressionados, partidos fortalecidos e outros praticamente esvaziados.

No centro desse furacão está o Partido Liberal (PL), onde nomes como Marcos Pollon, Capitão Contar e Gianni Nogueira decidiram permanecer na sigla, mesmo diante de dúvidas sobre espaço e apoio. A permanência, no entanto, colocou os três em uma posição delicada: agora dependem diretamente das decisões das cúpulas estadual e nacional.

A promessa de que a escolha será feita com base em pesquisas, defendida por lideranças como Valdemar da Costa Neto, Reinaldo Azambuja e reforçada por Flávio Bolsonaro, não elimina a tensão interna. Pelo contrário, acirra a disputa, já que levantamentos recentes indicam vantagem para Azambuja e Contar, deixando Pollon e Gianni em desvantagem no jogo político.

Mesmo assim, os dois últimos apostam em um fator externo: o peso político de Jair Bolsonaro. Pollon, inclusive, ganhou fôlego após uma carta divulgada por Michelle Bolsonaro, na qual o ex-presidente o elogia e sinaliza preferência para a vaga ao Senado. Ainda assim, o apoio não garante candidatura — tudo dependerá da disposição da cúpula partidária em acatar ou não essa indicação.

Nos bastidores, a disputa ganhou contornos ainda mais polêmicos após o vazamento de anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro, que mencionavam valores milionários supostamente pedidos para desistência de candidaturas — episódio negado posteriormente, mas que elevou o nível de tensão interna.

Enquanto isso, Gianni Nogueira chegou a ensaiar uma saída para o Partido Novo, onde teria espaço garantido, mas recuou diante de cálculos políticos e financeiros, especialmente ligados à viabilidade de campanha dentro do atual cenário.

Reconfiguração de forças

Se no PL a disputa é interna, no cenário geral a janela partidária provocou uma verdadeira reconfiguração de forças em Mato Grosso do Sul.

Na Assembleia Legislativa, o PL saiu como grande vencedor, saltando de três para sete deputados estaduais e assumindo protagonismo político no Estado.

O Republicanos também avançou de forma significativa, passando de uma cadeira para quatro, consolidando-se como peça-chave dentro da base governista.

Já a federação União Progressista (PP + União Brasil) ampliou presença e se posiciona como uma das principais forças para 2026, especialmente na Câmara Federal.

Por outro lado, partidos tradicionais sofreram duros golpes. O PSDB, que já foi protagonista, praticamente desmoronou: perdeu parlamentares importantes e ficou sem representação na Câmara dos Deputados por Mato Grosso do Sul.

O MDB seguiu o mesmo caminho de enfraquecimento, reduzindo drasticamente sua presença na Assembleia Legislativa.

Brasília também entrou no jogo

As mudanças não ficaram restritas ao cenário estadual. Na bancada federal, três deputados trocaram de partido, acelerando o processo de redesenho político e evidenciando a fragilidade de antigas estruturas partidárias.

Além disso, a movimentação de lideranças nacionais também influenciou diretamente o cenário local, como no caso da filiação da senadora Soraya Thronicke ao PSB, resultado de articulações nos bastidores com apoio de setores da esquerda.

Crise no PDT amplia tensão

Outro foco de instabilidade envolve o ex-prefeito Marquinhos Trad. Após deixar o PDT e se filiar ao PV, ele virou alvo de uma disputa jurídica interna que pode resultar até na perda de mandato.

A polêmica gira em torno de uma carta de anuência considerada inválida por dirigentes do partido, o que abriu caminho para ações judiciais e aprofundou o racha interno. O caso expõe não apenas uma disputa individual, mas a fragilidade das siglas diante do período eleitoral.

Cenário indefinido e pressão crescente

Com o fim da janela partidária, o que se vê em Mato Grosso do Sul é um cenário longe de qualquer estabilidade. Ao invés de definições, o período deixou uma série de disputas abertas, especialmente dentro dos próprios partidos.

A corrida pelo Senado, em especial, se transformou em um campo de batalha onde pesquisas, interesses partidários e influências externas — como a de Bolsonaro — devem colidir até as convenções.

Enquanto isso, partidos como PL, Republicanos e União Progressista saem fortalecidos, ocupando espaços estratégicos e se preparando para protagonizar a disputa eleitoral. Já legendas tradicionais enfrentam o desafio de sobreviver politicamente em um ambiente cada vez mais competitivo.

No fim das contas, a janela partidária não encerrou o jogo — apenas deu início a uma fase ainda mais intensa, onde decisões internas, alianças e traições podem definir o futuro político do Estado.