Política Tensão
Câmara de Campo Grande trava em meio à polêmica: saúde, pressão política e divisão adiam votação decisiva
Projeto de gestão com OSC nas unidades do Aero Rancho e Tiradentes expõe racha entre vereadores e mobiliza servidores
30/04/2026 13h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Divulgação

A Câmara Municipal de Campo Grande voltou a ser palco de tensão política nesta semana ao discutir um dos projetos mais controversos do ano: a proposta que prevê a gestão de duas unidades de saúde por meio de parceria com Organização da Sociedade Civil (OSC). O clima de divisão entre os vereadores foi tão intenso que a votação acabou adiada, mesmo após pressão direta do Executivo.

O projeto, enviado em regime de urgência pela Prefeitura, propõe um modelo administrativo experimental nos Centros Regionais de Saúde (CRS) do Aero Rancho e do Tiradentes. A iniciativa prevê a manutenção dos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem alteração no caráter público dos serviços, e com custo estimado em cerca de R$ 2 milhões mensais por unidade — valor que, segundo o Executivo, já é praticado atualmente.

Apesar disso, a proposta acendeu o alerta entre parlamentares e servidores. A sessão desta quinta-feira foi marcada por lotação, articulações intensas nos bastidores e atuação direta do secretário de Governo, Ulisses Rocha, que tentou consolidar votos favoráveis ao projeto. Ainda assim, a falta de consenso prevaleceu.

Divisão exposta e votação adiada

Nos corredores da Câmara, o cenário era de impasse. Parte dos vereadores demonstrou resistência à proposta, principalmente diante das críticas sobre possível “privatização disfarçada” da saúde pública. Com o plenário dividido, a presidência optou por adiar a votação para a próxima sessão, evitando uma derrota ou aprovação apertada.

A proposta estabelece um projeto piloto com duração inicial de até 12 meses, podendo ser interrompido a qualquer momento pelo Executivo caso haja descumprimento de metas, irregularidades ou prejuízo na qualidade do atendimento. Além disso, servidores concursados das unidades afetadas seriam remanejados para outras unidades da rede municipal.

Pressão de servidores e críticas ao modelo

A discussão não ficou restrita ao plenário. Servidores da saúde já haviam lotado sessões anteriores em protesto contra a medida, temendo perda de direitos, redução salarial e precarização do serviço. Há também críticas quanto à capacidade de fiscalização do município sobre contratos com organizações sociais.

Entidades como o Conselho Municipal de Saúde também manifestaram preocupação com o modelo, apontando riscos de aumento de custos ao longo do tempo e possíveis falhas na execução — problemas já observados em experiências semelhantes em outras regiões.

Prefeitura defende caráter “experimental”

Por outro lado, a Prefeitura sustenta que a iniciativa é limitada, reversível e não representa privatização. O argumento central é que o modelo pode trazer maior eficiência na gestão, com monitoramento contínuo por meio de indicadores assistenciais, administrativos e operacionais.

A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) ficará responsável por acompanhar a execução do projeto e divulgar relatórios periódicos de transparência, garantindo acesso público às informações.

Câmara também avança em pauta sustentável

Enquanto o debate sobre a saúde domina os holofotes, a Câmara também protagonizou uma iniciativa considerada positiva: a assinatura de um termo de compromisso com a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems) para adesão a um programa de energia renovável.

A parceria permitirá redução de até 20% na conta de energia para servidores e colaboradores, por meio de geração compartilhada em usinas fotovoltaicas, sem necessidade de instalação de equipamentos. A medida é vista como avanço em sustentabilidade e economia interna, alinhada à meta de neutralização de carbono até 2030.

Um Legislativo sob pressão

Entre projetos polêmicos e iniciativas administrativas, a Câmara de Campo Grande vive um momento de forte pressão política e social. A discussão sobre o futuro da gestão da saúde pública evidencia não apenas divergências ideológicas, mas também a dificuldade de construir consensos em temas sensíveis.

Com a votação adiada, o debate promete se intensificar nos próximos dias — e o desfecho pode impactar diretamente o modelo de atendimento à população da Capital.