Brasil Dívidas
Desenrola vira aposta arriscada e brasileiros podem torrar o FGTS sem sair do sufoco financeiro
Governo vende Desenrola 2.0 como solução para limpar o nome, mas especialistas alertam que muitos trabalhadores continuarão endividados mesmo após usar a reserva do FGTS
14/05/2026 16h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

O governo Lula aposta no Desenrola 2.0 como uma grande vitrine para combater a inadimplência no país. A nova fase do programa permitirá que trabalhadores usem parte do saldo do FGTS para renegociar dívidas bancárias com descontos e juros menores. Mas, por trás da promessa de “limpar o nome”, cresce a preocupação de economistas e especialistas financeiros: milhões de brasileiros podem gastar uma das poucas reservas que possuem e ainda permanecer presos ao ciclo do endividamento.

Pelas regras do programa, trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos poderão usar até 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1 mil para quitar dívidas atrasadas. O governo promete descontos de até 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e parcelamentos em até 48 meses.

O problema é que o Desenrola pode aliviar momentaneamente o CPF, mas não resolver o principal motivo da inadimplência: o aperto financeiro permanente vivido pelas famílias brasileiras. Sem aumento de renda, com inflação corroendo o orçamento e crédito ainda caro, muitos consumidores correm o risco de quitar dívidas hoje e voltar ao vermelho poucos meses depois.

Especialistas ouvidos pela imprensa alertam que o FGTS funciona como uma proteção para desemprego, emergência ou compra da casa própria. Ao usar esse dinheiro para cobrir dívidas acumuladas, o trabalhador pode ficar sem reserva justamente em um momento de crise econômica e instabilidade no mercado de trabalho.

A própria Confederação Nacional do Comércio (CNC) criticou a medida e afirmou que usar o FGTS para pagar dívidas “não é solução permanente” para o problema da inadimplência no Brasil. A entidade defende medidas estruturais, como educação financeira e geração de renda, em vez de apenas liberar recursos emergenciais.

Outro ponto que chama atenção é que o dinheiro do FGTS não passará pela conta do trabalhador. Após a renegociação, a Caixa Econômica Federal fará a transferência direta para os bancos e instituições financeiras.

Enquanto isso, nas redes sociais, já surgem críticas e até incentivo indireto ao endividamento recorrente. Em fóruns online, usuários ironizam a expectativa de futuros programas de renegociação e relatam que pessoas passaram a atrasar contas esperando novos descontos do governo.

O governo estima movimentar mais de R$ 8 bilhões do FGTS dentro do Desenrola 2.0. Porém, críticos afirmam que o programa acaba funcionando mais como um socorro ao sistema financeiro do que uma solução definitiva para o trabalhador brasileiro.

No fim, o risco é claro: o brasileiro perde parte da sua reserva trabalhista, continua convivendo com orçamento apertado e ainda pode voltar rapidamente para a fila dos endividados. O nome até pode sair do Serasa, mas a crise financeira dentro de casa continua longe de acabar.