Brasília amanheceu diante de uma nova tempestade política e econômica. Em um relatório que pode abrir caminho para tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, o governo dos Estados Unidos colocou o combate à corrupção no Brasil no centro da investigação comercial e citou diretamente decisões do ministro do STF, Dias Toffoli, relacionadas aos desdobramentos da Operação Lava Jato.
O documento do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sustenta que o Brasil tem apresentado falhas na fiscalização e no combate à corrupção, reproduzindo preocupações levantadas por organismos internacionais sobre a anulação de provas e a revisão de acordos ligados à Lava Jato. Segundo a avaliação americana, essas medidas contribuíram para aumentar a insegurança jurídica e enfraquecer mecanismos de responsabilização de envolvidos em grandes escândalos.
O relatório vai além da questão judicial. Os norte-americanos também colocaram na lista de críticas o Pix, o Banco Central, regras comerciais, propriedade intelectual, etanol e questões ambientais. Para Washington, determinadas políticas brasileiras seriam "irracionais ou discriminatórias" e prejudicariam empresas e interesses comerciais dos Estados Unidos.
A inclusão da Lava Jato no documento chamou atenção porque resgata um tema que parecia encerrado no debate internacional. Ao mencionar decisões que anularam processos e acordos de leniência, o governo Trump reabre uma discussão que continua dividindo juristas, políticos e instituições brasileiras.
A reação do governo Lula foi imediata. O Palácio do Planalto classificou a iniciativa como uma medida politicamente motivada e acusou aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro de atuarem junto ao governo americano para pressionar o Brasil. O presidente Lula elevou o tom ao acusar adversários políticos de incentivarem interferências externas em assuntos internos do país.
Enquanto o embate político se intensifica, a ameaça econômica permanece. A proposta de tarifa de 25% ainda passará por audiências públicas e consultas antes de uma decisão final da Casa Branca. Mesmo assim, o episódio já produz efeitos significativos ao colocar novamente sob os holofotes temas sensíveis como corrupção, segurança jurídica, atuação do STF e credibilidade institucional do Brasil.
Nos bastidores, a avaliação é que a disputa deixou de ser apenas comercial. O que começou como uma investigação sobre práticas econômicas brasileiras se transformou em um confronto político e institucional que atinge o governo Lula, o Supremo Tribunal Federal e antigos capítulos da Lava Jato, reacendendo um dos debates mais explosivos da história recente do país.