A estratégia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de transformar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas em um debate sobre soberania nacional não tem encontrado respaldo na opinião pública. Levantamentos divulgados nas últimas semanas apontam que a maioria dos brasileiros apoia o enquadramento das facções como grupos terroristas, contrariando a narrativa defendida pelo Palácio do Planalto.
Pesquisa AtlasIntel revelou que 53,1% dos brasileiros apoiam a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como organizações terroristas internacionais. O levantamento também apontou que 55,9% defendem que o próprio governo brasileiro adote a mesma medida.
Já a pesquisa Genial/Quaest mostrou que, embora a decisão dos Estados Unidos divida opiniões, com 45% favoráveis e 45% contrários, há ampla maioria favorável à classificação das facções pelo Brasil: 60% apoiam a medida, contra 29% que rejeitam a proposta.
Os números representam um revés para a estratégia política do PT, que buscou associar a decisão do governo americano a uma suposta ameaça à soberania nacional. A aposta governista era transformar o tema em um embate diplomático, mas o debate acabou sendo absorvido pela população sob outra ótica: a do combate ao crime organizado.
A oposição, por sua vez, encontrou terreno fértil para explorar o tema. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, passou a defender publicamente a classificação das facções e associou a medida à necessidade de endurecer o combate ao crime no país.
A pesquisa Quaest mostrou ainda que 47% dos entrevistados acreditam que Flávio Bolsonaro teve influência na decisão do governo americano, enquanto 37% consideram que ele não exerceu qualquer papel no processo.
O avanço das facções criminosas pelo país parece ter pesado mais na avaliação popular do que os argumentos diplomáticos apresentados pelo governo federal. A própria Quaest identificou que a segurança pública aparece entre as principais preocupações dos brasileiros, superando temas que tradicionalmente dominavam o debate político, como corrupção e economia.
Especialistas avaliam que a narrativa do endurecimento contra o crime conseguiu maior adesão popular porque dialoga diretamente com o sentimento de insegurança presente em diversas regiões do país. Enquanto o governo enfatizou riscos relacionados à soberania nacional e às relações diplomáticas, a oposição conseguiu conectar a medida à percepção de enfrentamento mais rigoroso das organizações criminosas.
Apesar da derrota na disputa sobre a classificação das facções, Lula mantém vantagem quando o tema é a defesa dos interesses nacionais frente aos Estados Unidos. Segundo a Quaest, 64% dos brasileiros aprovam a postura do governo diante de possíveis sanções e pressões econômicas americanas, enquanto 47% consideram que o presidente representa melhor o discurso de patriotismo e defesa dos interesses do Brasil.
Ainda assim, os levantamentos apontam um cenário preocupante para o Planalto: na área da segurança pública, uma das pautas com maior potencial de influência eleitoral em 2026, a narrativa governista encontra resistência significativa e abre espaço para o crescimento do discurso oposicionista de combate mais duro ao crime organizado.