A aprovação do projeto de renegociação das dívidas rurais no Senado acendeu o sinal vermelho no Palácio do Planalto e provocou uma forte reação do governo Lula. Diante do impacto fiscal estimado em R$ 140 bilhões ao longo da próxima década, o Executivo iniciou uma ofensiva política para tentar impedir que a proposta avance na Câmara dos Deputados.
Nos bastidores de Brasília, a movimentação foi imediata. Um dia após a derrota no Senado, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, procurou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para demonstrar a insatisfação do governo e pedir cautela na tramitação da proposta.
A preocupação do Planalto vai além do impacto financeiro. O que mais incomodou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o fato de parlamentares de partidos que integram ou apoiam a base governista terem participado da articulação que garantiu a aprovação do projeto no Senado. O episódio expôs dificuldades do governo em manter alinhamento dentro de sua própria base e reacendeu questionamentos sobre sua capacidade de articulação política no Congresso.
Segundo relatos de bastidores, integrantes da equipe econômica querem apresentar pessoalmente ao comando da Câmara argumentos técnicos para barrar ou modificar a proposta antes que ela seja levada ao plenário. O temor é que a aprovação represente mais um golpe nos esforços do governo para equilibrar as contas públicas.
A situação fica ainda mais delicada porque outras duas propostas com elevado impacto fiscal já avançam no Congresso e podem desembarcar em breve na Câmara. Uma delas prevê a elevação do piso salarial nacional de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13.662 em jornada de 20 horas semanais, medida cujo impacto é estimado em aproximadamente R$ 47 bilhões.
Outra preocupação do governo é a proposta relacionada à aposentadoria dos agentes comunitários de saúde, que já recebeu aval na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A estimativa é de um custo adicional de cerca de R$ 99 bilhões em dez anos.
Diante desse cenário, o Planalto vê crescer uma sequência de pautas que ampliam a pressão sobre as contas públicas justamente em um momento em que o governo busca demonstrar compromisso com o equilíbrio fiscal. A soma dos impactos estimados das propostas em tramitação ultrapassa R$ 280 bilhões, valor que tem provocado preocupação dentro da equipe econômica.
Enquanto o governo tenta conter o avanço das matérias, parlamentares da bancada ruralista e de outras categorias pressionam pela aprovação dos projetos, argumentando que as medidas corrigem distorções e atendem demandas históricas de setores importantes da economia e do serviço público.
O embate promete elevar ainda mais a temperatura política em Brasília nas próximas semanas e pode se transformar em um dos maiores testes de força do governo Lula no Congresso Nacional neste ano.