Depois de anos de reclamações, atrasos, superlotação, ônibus quebrados e uma crescente indignação dos usuários, a Prefeitura de Campo Grande decretou a intervenção no Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo da Capital. A medida, considerada a mais dura já adotada contra a concessionária, representa um divisor de águas em uma crise que afeta diariamente milhares de trabalhadores, estudantes e famílias campo-grandenses.
A intervenção ocorre nove meses após a conclusão da CPI do Transporte Público da Câmara Municipal, que produziu um relatório de mais de 800 páginas apontando uma série de irregularidades e recomendando justamente a adoção dessa medida. O documento revelou problemas operacionais, financeiros e contratuais que, segundo os vereadores, comprometeram a qualidade do serviço e colocaram em risco os usuários do sistema.
Entre as irregularidades identificadas estão a manutenção de uma frota envelhecida acima do limite permitido em contrato, ausência de seguros obrigatórios, falhas na manutenção preventiva, deficiência na acessibilidade e uma rotina marcada por atrasos, quebras mecânicas e superlotação. A própria CPI recomendou a substituição imediata de 197 ônibus, número que atualmente já ultrapassa 230 veículos que necessitam ser renovados.
O presidente da CPI, vereador Dr. Lívio, destacou que a decisão da prefeitura confirma a importância do trabalho de investigação realizado pela Câmara. Segundo ele, os problemas denunciados pela comissão não apenas persistiram como se agravaram ao longo dos últimos meses, tornando inevitável uma ação mais enérgica do poder público.
A relatora da CPI, vereadora Ana Portela, afirmou que a intervenção desmonta as críticas de que o relatório não teria consequências práticas. Para ela, a medida é apenas o começo de um processo que poderá culminar no encerramento definitivo do contrato com o Consórcio Guaicurus. A parlamentar ressaltou que a prefeitura agora possui embasamento técnico e jurídico suficiente para tomar decisões mais profundas sobre o futuro da concessão.
O decreto assinado pela prefeita Adriane Lopes prevê uma intervenção de até 180 dias. Durante esse período, uma junta interventora nomeada pelo município assumirá a administração do sistema para apurar irregularidades, garantir a continuidade do serviço e buscar soluções para os problemas que há anos penalizam a população.
Apesar da intervenção, os ônibus continuarão circulando normalmente. A diferença é que a gestão da concessionária passará a ser acompanhada diretamente pelo município, que terá acesso aos sistemas, documentos e operações do Consórcio Guaicurus.
Ao final dos seis meses de intervenção, dois caminhos poderão ser seguidos. O primeiro é a devolução da concessão ao consórcio, desde que sejam comprovadas melhorias e capacidade de cumprir as obrigações contratuais. O segundo, considerado o mais severo, é a extinção da concessão por descumprimento grave e reiterado do contrato, abrindo caminho para uma nova licitação e um novo modelo de operação do transporte coletivo em Campo Grande.
A movimentação desta terça-feira deixou claro que a prefeitura pretende agir com rigor. Equipes da Guarda Civil Metropolitana foram enviadas às garagens do Consórcio para acompanhar os primeiros atos da intervenção, enquanto técnicos municipais iniciaram procedimentos para garantir acesso aos sistemas e documentos da empresa.
A intervenção marca um dos momentos mais delicados da história do transporte coletivo da Capital. Para milhares de usuários que convivem diariamente com ônibus lotados, atrasos constantes e veículos deteriorados, a expectativa agora é que a medida represente não apenas uma fiscalização temporária, mas o início de uma mudança concreta em um serviço que há muito tempo deixou de atender às necessidades da população.