A entrevista do bispo Robson Rodovalho ao O Globo não deve ser lida como um gesto de hostilidade contra Flávio Bolsonaro, mas como um alerta político e espiritual que precisa ser tratado com seriedade. O que se vê ali não é oportunismo, nem ruptura gratuita, mas a leitura de um líder que conhece o peso da confiança no campo evangélico e sabe que, quando ela se perde, a recuperação é difícil.
Rodovalho foi direto ao afirmar que “o evangélico é intransigente com mentira” e que “a pior coisa que tem é uma coisa ser dita e a realidade ser outra”. Essa frase, por si só, deveria bastar para mudar o tom de parte dos aliados de Flávio, que preferem condenar o bispo em vez de enfrentar a causa do desgaste. O problema central apontado na entrevista não é apenas o caso Daniel Vorcaro ou o Banco Master, mas a percepção de contradição entre o que foi dito e o que depois veio à tona.
No universo evangélico, coerência não é ornamento. É requisito de liderança. Por isso, quando Rodovalho diz que Flávio “está perdendo a confiança do segmento” e que “o copo de cristal trincou”, ele está descrevendo uma realidade política que não se resolve com indignação seletiva nem com ataque ao mensageiro. Quem se fecha à crítica perde a chance de corrigir o rumo.
Outro ponto forte da entrevista é a cobrança por presença política real. Rodovalho lembra que Jair Bolsonaro construiu sua relação com o segmento ao longo do tempo, conversando, ouvindo e se aproximando das lideranças, enquanto Flávio fez “poucos movimentos na direção de lideranças evangélicas”. Isso revela uma fragilidade que vai além da crise momentânea: liderança herdada sem enraizamento próprio é sempre instável.
A fala sobre Michelle Bolsonaro também merece destaque. Rodovalho não a trata como plano B improvisado, mas como uma força política que dialoga com mulheres, jovens e até com públicos fora da bolha tradicional da direita. Isso mostra que a família Bolsonaro ainda tem ativos importantes, mas precisa decidir se vai tratá-los com estratégia ou com vaidade.
Por isso, considero que a linha sugerida pelo bispo deve ser encarada com responsabilidade. Se houve erro de narrativa, ele precisa ser corrigido. Se houve omissão, ela precisa ser explicada. Se houver necessidade de pedido público de desculpas, que isso seja feito sem medo. O eleitor evangélico valoriza verdade, humildade e arrependimento mais do que blindagem retórica.
Atacar Rodovalho, nesse contexto, é o caminho mais fácil — e também o mais equivocado. A entrevista não desmancha a candidatura de ninguém; ela apenas expõe o custo de se tratar confiança como se fosse um bem automático. Não é. Confiança se conquista, se preserva e, quando ferida, exige verdade para ser reconstruída.
Eu entendo que a política provoca paixões, e que os círculos mais próximos muitas vezes reagem com dureza quando são contrariados. Mas, justamente por isso, lideranças sérias precisam saber ouvir críticas duras sem transformá-las em guerra pessoal. A fala de Rodovalho é um aviso. E avisos, em política e na fé, não devem ser desprezados.
Wilton Acosta
Ex-presidente nacional do Fenasp