A Operação Gutenberg, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), ganhou novos desdobramentos com a divulgação do balanço atualizado das diligências. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) confirmou a apreensão de mais de R$ 3 milhões em cheques e mais de R$ 200 mil em dinheiro em espécie, além do cumprimento de 14 mandados de prisão preventiva. Outros dois investigados continuam foragidos da Justiça.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, o Gaeco também efetuou três prisões em flagrante por posse ilegal de arma de fogo. Dos 43 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça, 40 já foram cumpridos em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás.
As investigações apontam a existência de uma organização criminosa especializada em fraudar contratos públicos para aquisição de livros paradidáticos por meio da inexigibilidade de licitação. Segundo o MPMS, o esquema movimentou mais de R$ 27 milhões, recursos que, conforme a apuração, eram distribuídos entre empresários, servidores públicos e empresas utilizadas para ocultar a origem ilícita do dinheiro.
Um dos aspectos considerados mais graves pela investigação é o suposto uso da estrutura da saúde pública estadual para favorecer o grupo. De acordo com o Gaeco, servidores cooptados utilizavam influência no Complexo Regulador Estadual (Core) para condicionar a autorização de exames, cirurgias e vagas hospitalares à compra dos livros comercializados pelos investigados, transformando o acesso aos serviços de saúde em instrumento de pressão sobre gestores municipais.
Entre os presos estão o então coordenador estadual de Regulação Assistencial, Ed Carlo Britto Burgatt, sua filha Jéssyca Duarte Burgatt, a empresária Rossana Paroschi Jafar, seus filhos Olívia e Felipe Paroschi Jafar, os empresários Paulo Rogério de Melo e Douglas Henrique de Melo, Joatan Gomes Peixoto, Matheus Oliveira Peixoto, o ex-prefeito de Fátima do Sul Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior (Junior Vasconcelos), Francisco Anizio dos Santos e os advogados Gabriel Taquino de Paula e Geancarlos Leal.
Os dois alvos que permanecem com mandados de prisão em aberto são Giovanni Paroschi Jafar, integrante da família investigada, e Heyder Bartz, apontado nas investigações como estrategista educacional ligado ao esquema.
Outro detalhe que chamou a atenção dos investigadores foi a quantidade de dinheiro vivo apreendida. Parte das cédulas estava lacrada pelo Banco Central, indicando que os valores haviam sido recentemente retirados do sistema bancário. O montante em espécie também superou o balanço inicial divulgado no dia da operação, quando haviam sido informados cerca de R$ 69 mil e US$ 907 apreendidos.
Após a deflagração da operação, o Governo de Mato Grosso do Sul informou a abertura de auditorias para apurar os procedimentos apontados como fraudulentos. Ed Carlo Burgatt foi exonerado da coordenação da Regulação Estadual, enquanto Junior Vasconcelos, servidor concursado da Polícia Civil, foi afastado de suas funções administrativas.
Batizada de Gutenberg, em referência ao inventor da imprensa moderna, a operação faz uma analogia ao uso dos livros como instrumento para conferir aparência de legalidade a um esquema que, segundo o Ministério Público, permaneceu ativo por anos e ainda mantinha contratos em vigor em diversos municípios sul-mato-grossenses quando as investigações foram desencadeadas.