A intervenção da Prefeitura de Campo Grande no Consórcio Guaicurus começa a revelar a dimensão da crise financeira e administrativa que atingiu o sistema de transporte coletivo da Capital. Após um mês de auditoria, a equipe interventora confirmou que o passivo da concessionária já ultrapassa R$ 20 milhões, valor superior ao inicialmente estimado e que ainda pode crescer à medida que as investigações avançam.
O levantamento reforça a suspeita de que os problemas enfrentados diariamente pelos usuários — ônibus antigos, atrasos, superlotação e falhas na operação — são consequência de anos de administração considerada ineficiente pela equipe responsável pela intervenção.
O interventor-chefe, Aléxandro de Oliveira, afirmou que as análises ainda não foram concluídas, mas garantiu que o rombo já é superior aos R$ 20 milhões divulgados no relatório preliminar. Segundo ele, o valor definitivo será apresentado quando toda a situação financeira da empresa estiver consolidada.
Mais grave do que o tamanho da dívida, segundo a intervenção, é a constatação de que decisões administrativas equivocadas contribuíram para o colapso financeiro da concessionária. Aléxandro afirmou que a equipe identificou tentativas de transferir aos passageiros e ao município os custos provocados pela própria gestão da empresa, posição que classificou como inaceitável.
A prefeita Adriane Lopes também endureceu o discurso após receber o primeiro balanço da intervenção. Segundo ela, a auditoria confirmou um histórico de má gestão que comprometeu a qualidade do transporte coletivo, tendo como um dos principais reflexos o sucateamento da frota e a queda na qualidade do serviço prestado à população.
Enquanto a auditoria financeira avança, a Prefeitura instaurou processo administrativo disciplinar contra os proprietários do Consórcio Guaicurus. A intervenção seguirá até dezembro, período em que serão analisados contratos, contas, patrimônio e a operação do sistema.
Ao término dos trabalhos, caberá à prefeita decidir, em janeiro, o futuro da concessão, podendo manter, alterar ou até rescindir o contrato, conforme as conclusões do relatório técnico.
Em nota, os sócios do Consórcio Guaicurus afirmaram que solicitaram acesso formal ao processo para exercer o direito ao contraditório e à ampla defesa. Também disseram estar dispostos a construir uma solução negociada para o transporte coletivo dentro dos limites legais.
O avanço da auditoria aumenta a pressão por mudanças em um serviço que, há anos, é alvo de reclamações dos usuários e de sucessivas cobranças do Ministério Público, da Câmara Municipal e da própria população. O relatório final deverá mostrar se o rombo milionário foi resultado apenas de má administração ou se haverá elementos para responsabilização dos gestores da concessionária.