Brasil Tarifaço
Menos campanha, mais negociação: o Brasil precisa de resultados, não de marketing político
Com o tarifaço dos Estados Unidos já em vigor, governo transforma uma crise econômica em disputa eleitoral, enquanto empresas e trabalhadores aguardam soluções concretas
22/07/2026 14h30
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

A entrada em vigor da tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deveria ter marcado o início de uma ofensiva diplomática intensa para reduzir prejuízos à economia nacional. Em vez disso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores escolheram outro caminho: lançar a campanha "O Brasil Não Se Entrega", numa estratégia de comunicação que busca fortalecer o discurso de soberania nacional e, ao mesmo tempo, atribuir a responsabilidade pela crise à família Bolsonaro.

A defesa da soberania é legítima e necessária. O problema surge quando ela se transforma em slogan político enquanto exportadores, produtores rurais, industriais e trabalhadores convivem com os efeitos concretos do aumento das tarifas. Em crises comerciais dessa dimensão, espera-se que a prioridade do governo seja ampliar canais de diálogo, negociar condições mais favoráveis e minimizar os impactos econômicos, e não concentrar esforços em uma campanha de comunicação.

Também chama atenção a tentativa de centralizar o debate na disputa política interna. O PT sustenta que o tarifaço foi incentivado por integrantes da família Bolsonaro e estruturou sua campanha sobre essa narrativa. Entretanto, integrantes do governo norte-americano apresentaram outra justificativa para a medida. Autoridades dos Estados Unidos afirmaram que as tarifas decorrem de divergências comerciais e acusaram o governo brasileiro de não negociar "de boa-fé", direcionando suas críticas à condução do governo Lula, e não atribuindo a decisão exclusivamente à atuação de adversários políticos do presidente.

Isso não significa que a posição dos Estados Unidos esteja necessariamente correta ou que suas medidas sejam justificadas. Tampouco elimina o componente político existente na relação bilateral. Mas, diante de versões conflitantes, transformar um problema econômico em instrumento de polarização interna pode dificultar ainda mais a construção de soluções.

Enquanto vídeos, peças publicitárias e mobilizações digitais ocupam espaço nas redes sociais, empresas brasileiras continuam enfrentando custos maiores para exportar, setores produtivos calculam prejuízos e investidores observam com preocupação o aumento da tensão entre os dois países.

A história mostra que disputas comerciais raramente são resolvidas por campanhas publicitárias. Elas exigem diplomacia, negociação técnica, capacidade de articulação e disposição para construir pontes, mesmo em cenários de divergência política.

O Brasil tem todo o direito de defender sua soberania e seus interesses estratégicos. Mas soberania também se demonstra com resultados. Se o objetivo é proteger empregos, preservar a competitividade da indústria e reduzir os impactos sobre a economia, o foco principal precisa estar na mesa de negociações — e não apenas na disputa pelo controle da narrativa política.