O Hospital Municipal de Campo Grande, apresentado pela Prefeitura como uma das obras mais importantes da história recente da saúde pública da Capital, sofreu um duro revés após duas tentativas frustradas de licitação. Sem conseguir atrair empresas interessadas no empreendimento, a administração municipal anunciou que irá reavaliar tecnicamente o projeto e discutir um novo modelo de execução da obra.
A decisão representa, na prática, uma freada significativa em uma proposta que havia sido lançada com forte discurso de modernização da rede pública de saúde e promessa de ampliar a oferta de leitos, cirurgias e atendimento especializado para pacientes do SUS.
Em nota divulgada nesta segunda-feira (27), a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) afirmou que o hospital continua sendo prioridade da gestão, mas reconheceu a necessidade de revisar o projeto para definir qual formato será viável do ponto de vista técnico, financeiro e operacional.
O novo desenho do complexo hospitalar deverá ser debatido com o Conselho Municipal de Saúde e com a Câmara Municipal, o que indica que a Prefeitura ainda não possui uma definição consolidada sobre como pretende tirar a obra do papel.
Quando foi anunciado, em setembro de 2023, o Hospital Municipal surgiu como uma resposta à histórica sobrecarga da rede pública de Campo Grande. A previsão inicial era de investimento de R$ 200 milhões e capacidade para atender cerca de 1,2 mil pessoas.
O projeto previa uma estrutura de 15 mil metros quadrados, quatro pavimentos, 259 leitos, 20 vagas de UTI adulta e pediátrica, 10 salas cirúrgicas, 53 consultórios, centro de diagnóstico, laboratório e geração de energia por placas solares. A unidade seria construída na região da Chácara Cachoeira, um dos bairros mais valorizados da Capital.
A primeira licitação, lançada em julho de 2024, adotou o modelo built to suit, no qual a empresa vencedora seria responsável por construir, equipar e entregar o hospital pronto para funcionamento imediato. Em troca, o município pagaria parcelas mensais ao longo de 20 anos.
Embora o discurso oficial destacasse inovação e rapidez na entrega, o formato chamou atenção pelo custo elevado. A remuneração prevista poderia ultrapassar R$ 1,2 bilhão ao longo do contrato, valor muito superior ao investimento inicialmente divulgado quando o projeto foi apresentado à população.
O primeiro certame terminou sem nenhuma proposta habilitada. A Prefeitura relançou a concorrência no mesmo mês, mas o resultado foi ainda mais preocupante: nenhuma empresa sequer apresentou proposta.
A ausência total de interessados acendeu um alerta sobre a atratividade econômica e a modelagem do empreendimento. Nos bastidores, especialistas em infraestrutura e gestão pública apontam que o mercado costuma reagir rapidamente quando considera que há excesso de riscos, insegurança contratual ou desequilíbrio financeiro no projeto.
Com o segundo fracasso, a Prefeitura foi obrigada a admitir que o modelo concebido originalmente não encontrou respaldo no setor privado.
Além da questão financeira, a própria escolha da Chácara Cachoeira passou a ser questionada dentro da administração municipal. A avaliação é que um hospital de alta complexidade precisa estar em área com acesso mais rápido para ambulâncias e pacientes vindos de diferentes regiões da cidade e do interior.
A discussão abre espaço para uma mudança que antes parecia improvável: o Hospital Municipal pode não ser construído no endereço originalmente anunciado.
O impasse ocorre em um momento de forte pressão sobre o sistema público de saúde de Campo Grande. A Santa Casa enfrenta dificuldades recorrentes, unidades de urgência operam frequentemente acima da capacidade e a Capital continua recebendo pacientes de dezenas de municípios do interior.
Nesse contexto, o Hospital Municipal deixou de ser apenas uma obra de infraestrutura e passou a simbolizar a expectativa de reorganização da rede pública de saúde.
Por enquanto, porém, o cenário é de indefinição. O projeto que foi apresentado como solução estruturante voltou praticamente à prancheta: sem empresa interessada, sem novo edital, sem prazo para contratação e agora também sem garantia de que será executado no formato originalmente prometido.
A reavaliação anunciada pela Prefeitura pode representar uma oportunidade para corrigir falhas da proposta. Mas também evidencia que, quase três anos após o lançamento oficial, o Hospital Municipal de Campo Grande ainda está longe de sair do papel.