O governo pode comemorar que a prévia da inflação oficial ficou em apenas 0,06% em julho, mas para o brasileiro comum esse número soa cada vez mais distante da realidade. A sensação nas ruas não é de alívio — é de sufoco. O trabalhador recebe, paga boletos, abastece a geladeira, quita a conta de luz e, antes da metade do mês, já percebe que o dinheiro desapareceu de novo. O problema não é mais apenas inflação; é a combinação explosiva de preços altos, impostos pesados, tarifas públicas em alta e renda que perdeu poder de compra.
O IBGE mostrou que o grande peso do mês veio da habitação, que subiu 0,97%. A energia elétrica residencial avançou 3,03% e foi o principal impacto individual da inflação. O aumento ocorreu por causa da bandeira tarifária amarela e de reajustes aplicados em várias cidades do país. Em algumas localidades, as altas passaram de 10% e chegaram perto de 20%.
Na prática, isso significa o seguinte: o brasileiro pode até encontrar o tomate um pouco mais barato, mas continua levando um choque quando abre a fatura de energia. E energia não é luxo. Ela está embutida no aluguel, no comércio, na indústria, no transporte e no preço de praticamente tudo o que se consome.
O grupo Saúde e cuidados pessoais também subiu 0,28%, puxado por produtos de higiene e pelos planos de saúde, que incorporaram reajustes autorizados pela ANS. Perfume subiu, higiene subiu, plano de saúde subiu. O recado é claro: até cuidar da saúde e da própria dignidade ficou mais caro.
É verdade que houve queda em alguns alimentos. Tomate caiu quase 20%, batata mais de 10% e café recuou pouco mais de 3%. Mas o próprio IBGE mostrou que a alimentação fora de casa continuou subindo, com refeições e lanches mais caros. Ou seja, quem trabalha o dia inteiro e depende de restaurante, marmita ou lanche não sentiu esse “alívio” anunciado nas manchetes.
O dado que desmonta o discurso de tranquilidade econômica é o acumulado de 4,52% em 12 meses, praticamente encostado no teto da meta de inflação. E o mercado financeiro já projeta que o IPCA deve fechar o ano acima de 5%, mostrando que a pressão sobre os preços está longe de ter sido resolvida.
Mas talvez o retrato mais cruel da economia brasileira esteja fora do IPCA. Está no endividamento recorde. Mais de 81% das famílias estão endividadas, quase 30% têm contas em atraso e o país atingiu 83,7 milhões de negativados, o maior número da série histórica. O cartão de crédito virou a bengala de sobrevivência de milhões de brasileiros.
E aqui está a contradição que revolta tanta gente: o governo celebra programas de renegociação de dívidas, enquanto a população continua precisando fazer dívida para comprar comida, pagar remédio, gás e combustível. Renegociar parcela não devolve poder de compra. Apenas empurra o problema para frente.
O trabalhador brasileiro vive hoje uma espécie de inflação invisível. Não é aquela hiperinflação dos anos 80, mas uma corrosão lenta e contínua. O salário entra e já sai comprometido com aluguel, energia, internet, transporte, escola, farmácia e supermercado. O que sobra, quando sobra, não permite poupança, investimento ou qualquer sensação de segurança.
E há um ingrediente que aumenta a indignação: a carga tributária embutida no consumo. O cidadão paga imposto no arroz, no pão, no café, na conta de luz, no combustível, no sabonete, no celular e até no remédio. O governo arrecada mais, mas o consumidor sente menos dinheiro no bolso.
O resultado é um país em que milhões trabalham mais, gastam mais e conseguem comprar menos. A inflação de 0,06% pode agradar economistas e reduzir pressão sobre o Banco Central, mas não muda a vida de quem precisa escolher entre pagar a conta de luz ou completar a compra do mês.
No papel, a inflação desacelerou. No bolso, o aperto continua. E é justamente por isso que cresce a sensação de que o brasileiro virou refém de uma economia em que o dinheiro perde valor mais rápido do que a capacidade de pagar as contas.