Mato Grosso do Sul voltou a ser palco de uma sequência brutal de crimes que escancara uma realidade cada vez mais alarmante. Em menos de 24 horas, duas mulheres foram assassinadas por homens com quem mantinham ou mantiveram relacionamento. Os feminicídios de Ana Carolina Goes, de 45 anos, em Água Clara, e de Adrielle Encarnação Rodrigues, de 26 anos, em Corumbá, elevaram para 18 o número de vítimas de feminicídio no Estado somente em 2026. Julho encerra como o mês mais mortal para as mulheres sul-mato-grossenses neste ano.
A morte de Ana Carolina reúne todos os elementos de uma tragédia anunciada. O ex-namorado, inconformado com o fim do relacionamento, desferiu cerca de 14 facadas contra ela diante de uma criança de apenas cinco anos, que, desesperada, conseguiu ligar para familiares em busca de socorro. A vítima chegou a ser hospitalizada, mas morreu horas depois. O suspeito foi preso enquanto tentava fugir da cidade e, segundo as investigações, já havia ameaçado Ana Carolina anteriormente.
Poucas horas depois, outra família foi destruída. Em Corumbá, Adrielle Encarnação Rodrigues foi morta a facadas pelo ex-companheiro, confirmando o segundo feminicídio em menos de um dia no Estado. A repetição do mesmo padrão — homens que não aceitam o fim da relação e transformam rejeição em violência extrema — evidencia que esses crimes não são episódios isolados, mas parte de uma epidemia que continua fazendo vítimas.
Os números reforçam a gravidade do cenário. Mato Grosso do Sul ocupa o 4º lugar no ranking nacional de feminicídios, e os dados mais recentes apontam crescimento desse tipo de crime no Estado. A maioria das vítimas foi morta dentro do contexto de violência doméstica, quase sempre precedida por ameaças, agressões, perseguições ou outras formas de violência que poderiam servir como alerta para uma intervenção mais rápida.
A cada novo feminicídio surge a mesma pergunta: quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a violência doméstica seja interrompida antes de chegar ao seu desfecho mais cruel? Em muitos casos, familiares, amigos e vizinhos já conheciam o histórico de ameaças. Em outros, havia registros de agressões anteriores. Ainda assim, o ciclo da violência não foi interrompido.
Especialistas apontam que combater o feminicídio exige ação conjunta da sociedade e do poder público. Entre as principais medidas estão:
Em Campo Grande, mulheres em situação de violência podem procurar a Casa da Mulher Brasileira, que funciona 24 horas, oferecendo atendimento integrado da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Defensoria Pública, Ministério Público, Vara de Medidas Protetivas, assistência psicossocial, acolhimento e Patrulha Maria da Penha. Em emergências, também é possível acionar a Guarda Civil Metropolitana pelo telefone 153.
Os 18 feminicídios registrados em apenas sete meses mostram que o problema deixou de ser apenas estatístico. Cada número representa uma mulher que perdeu a vida, uma família destruída e crianças que, muitas vezes, carregam para sempre o trauma de presenciar a violência. Enquanto a sociedade tratar os sinais de abuso como conflitos particulares e não como um risco concreto de morte, Mato Grosso do Sul continuará contabilizando vítimas de uma tragédia que pode — e precisa — ser evitada.