Política Corrida eleitoral
Novo entra atirando, Nelsinho implode o tabuleiro e MS assiste à guerra pela herança do Senado
Com João Henrique Catan lançado como “anti-sistema”, Reinaldo consolida superaliança com apoio de Flávio Bolsonaro e Soraya e Vander travam disputa aberta pelos votos deixados por Nelsinho Trad
04/08/2026 14h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

A reta final das convenções partidárias transformou Mato Grosso do Sul em um verdadeiro campo de batalha político. O Partido Novo decidiu entrar na disputa pelo Governo do Estado em tom de confronto direto com o grupo que hoje controla o Parque dos Poderes, enquanto a desistência de Nelsinho Trad (PSD) da reeleição ao Senado provocou uma guerra silenciosa — mas feroz — pela herança eleitoral de um dos nomes mais fortes das pesquisas.

Nesta quarta-feira (5), o Novo deve oficializar o deputado estadual João Henrique Catan como candidato ao Governo e o empresário Roberto Oshiro como candidato ao Senado. O partido ainda mantém suspense sobre o vice e não descarta lançar um segundo nome ao Senado, o que mostra que a legenda quer marcar território em um cenário dominado por grandes coligações.

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Mas o que chama atenção não é apenas a candidatura. É o discurso.

Catan, que deixou o PL após perder espaço para o grupo de Reinaldo Azambuja, decidiu transformar sua campanha em um ataque frontal às alianças costuradas no Estado. Sem citar nomes diretamente, afirmou que “antigas forças políticas se reorganizam para permanecer no poder” e que o eleitor vê alianças “antes improváveis” caminhando para o mesmo projeto político. A fala escancara a tentativa do Novo de se vender como a única alternativa fora do bloco que reúne PP, PL, MDB, PSD, PSDB, Republicanos e Avante.

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A bomba Nelsinho: do protagonismo à suplência

Se o Novo tenta crescer pelo discurso antiestablishment, o terremoto real aconteceu no Senado.

Nelsinho Trad, que aparecia entre os líderes das pesquisas, desistiu da reeleição para se tornar primeiro suplente de Reinaldo Azambuja. Nos bastidores, a decisão foi tratada como uma jogada cirúrgica para evitar a divisão de votos no grupo de Eduardo Riedel.

O problema é que a operação deixou feridas abertas.

Aliados admitem reservadamente um clima de “luto” entre apoiadores do senador. A comparação que circula nos bastidores é pesada: “o corpo nem esfriou e já começou a briga pela herança”. A herança, neste caso, são os votos, prefeitos, vereadores e lideranças regionais que orbitavam em torno de Nelsinho.

A equipe do senador deve continuar ativa para tentar transferir esse capital político para Reinaldo e Capitão Contar. O próprio Nelsinho publicou vídeo com a música Tocando em Frente e mensagem de “seguir a vida”, numa tentativa de demonstrar serenidade após a retirada da disputa.

Soraya e Vander: união impossível

Do lado da oposição ligada ao presidente Lula, a situação está longe da paz.

A possibilidade de uma dobradinha entre Soraya Thronicke (PSB) e Vander Loubet (PT) voltou a circular após a saída de Nelsinho, mas ambos reagiram de forma dura.

“Possibilidade zero. Sou a única mulher candidata”, disparou Soraya.

Vander também negou qualquer composição e afirmou que sua candidatura foi aprovada em convenção. O impasse revela um problema estratégico: se um desistir, o grupo teme entregar o segundo voto de bandeja para a direita.

Nos bastidores, a disputa já não é apenas contra Reinaldo. É também entre Soraya e Vander pelo eleitor moderado que ficou órfão de Nelsinho.

Vander aposta em prefeitos; Soraya aposta em Lula

Vander foi além e afirmou que pode ser o maior beneficiado pela saída do senador. Segundo ele, mais de 30 prefeitos já fizeram contato após a desistência.

O petista tenta ocupar o espaço de centro deixado por Nelsinho, destacando o perfil de diálogo do senador e dizendo que quer construir uma candidatura “sem radicalismo”.

Soraya, por sua vez, aposta no efeito Lula e defende que os eleitores do presidente façam voto casado nela e em Vander. A estratégia, porém, esbarra na realidade: nenhum dos dois quer abrir mão do protagonismo.

Reinaldo nacionaliza a disputa

Enquanto a oposição briga internamente, Reinaldo Azambuja avançou no tabuleiro nacional.

O ex-governador se reuniu em Brasília com Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, para alinhar estratégias de 2026. Flávio elogiou a ampla aliança construída em Mato Grosso do Sul e tratou o Estado como peça importante do projeto nacional do PL.

A reunião também serviu para consolidar a entrada de Nelsinho como suplente e reforçar a ideia de que o grupo de Riedel e Reinaldo quer chegar às eleições com o mínimo possível de fissuras.

Nos bastidores, o recado foi claro: a prioridade é vencer no Estado e ajudar a fortalecer o palanque presidencial de Flávio Bolsonaro.

Tereza Cristina vira peça cobiçada

Outro capítulo da novela envolve a senadora Tereza Cristina.

Apesar de o PP nacional ter adotado postura de neutralidade, lideranças sul-mato-grossenses seguem pressionando para que ela seja escolhida vice na chapa presidencial de Flávio.

Riedel e Reinaldo defenderam publicamente o nome da senadora, numa demonstração de que Mato Grosso do Sul tenta ampliar seu peso na política nacional.

Paulo Corrêa recebe afago em meio à tensão

Em meio ao clima de guerra, Eduardo Riedel também fez um gesto político calculado ao elogiar o deputado Paulo Corrêa (PL), destacando sua capacidade de articulação e lealdade aos municípios.

O movimento é visto como sinal de prestígio dentro da base e reforça a tentativa do governador de manter unido o grupo que sustentará sua reeleição.

O cenário: superbloco x anti-sistema x oposição dividida

A poucos dias do registro das candidaturas, o desenho que emerge em Mato Grosso do Sul é explosivo:

No fim das contas, a eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas uma disputa entre governo e oposição. Ela se transformou em uma batalha por sobrevivência política, controle de alianças e apropriação de um espólio eleitoral que, até poucos dias atrás, tinha dono.