Política Eleições
Convenções acabam, mas guerra por Brasília começa em MS e disputa por deputado federal vira campo de batalha
Mudanças de Reinaldo Azambuja e Eduardo Riedel embaralham forças políticas, aumentam a concorrência interna e transformam o PSDB no principal alvo dos adversários
05/08/2026 14h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

As convenções partidárias estão chegando ao fim em Mato Grosso do Sul, mas o clima de pacificação está longe de aparecer. Nos bastidores, lideranças admitem que a verdadeira guerra eleitoral começa agora — e ela não será travada apenas nas urnas. A disputa pelas oito vagas de deputado federal promete se transformar em uma das mais intensas e imprevisíveis da história recente do Estado.

O cenário mudou radicalmente após a saída de Reinaldo Azambuja para o PL e a filiação do governador Eduardo Riedel ao PP, dentro da Federação União Progressista. O movimento redistribuiu poder, dividiu antigos aliados e abriu uma corrida por espaço político em praticamente todas as chapas competitivas. A federação PP-União Brasil foi oficialmente registrada pelo TSE em março deste ano.

Entre os efeitos imediatos da reorganização está a fragmentação do antigo núcleo tucano. Três deputados federais ligados ao grupo — Beto Pereira, Dagoberto Nogueira e Geraldo Resende — seguiram caminhos diferentes. Beto migrou para o Republicanos, onde encontra um cenário considerado menos congestionado. Já Dagoberto e Geraldo permaneceram no PSDB até os últimos momentos e acabaram na mesma federação, mas terão de enfrentar uma concorrência interna pesada, dividindo espaço com nomes de forte densidade eleitoral, como Luiz Ovando (PP) e Rose Modesto (União Brasil).

No PL, a disputa também promete ser feroz. Os atuais deputados Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira tentam preservar suas bases enquanto novos nomes, como a deputada estadual Mara Caseiro, entram na corrida por espaço e votos.

O PSDB virou o alvo principal

Mesmo enfraquecido pela saída de suas principais lideranças, o PSDB continua sendo tratado como peça estratégica por adversários e aliados. A avaliação nos bastidores é que a legenda ainda tem condições reais de conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados, o que a transforma em alvo permanente de assédio político.

Com a nova interpretação das regras eleitorais sobre distribuição das sobras, partidos menores podem ganhar protagonismo inesperado. Pela lógica da eleição passada, uma legenda sem grande estrutura poderia alcançar uma vaga com pouco mais de 100 mil votos, reduzindo a barreira que antes girava em torno de 80% do quociente eleitoral. É justamente por isso que partidos maiores passaram a investir não apenas em ampliar suas chapas, mas também em enfraquecer as chapas concorrentes.

Nos bastidores, candidatos de diferentes siglas continuam sendo procurados para desistir da disputa ou aderir a campanhas de outros grupos, numa tentativa de impedir que partidos menores atinjam o mínimo necessário para entrar na divisão das sobras.

A meta declarada do bloco formado por PL e União Progressista é eleger três deputados federais. O desafio, porém, é evitar que a pulverização de votos permita a entrada de legendas menores na última vaga disponível.

PDT fecha com Fábio Trad e reforça palanque da esquerda

Enquanto a centro-direita reorganiza suas forças, o PDT confirmou apoio à candidatura de Fábio Trad ao governo de Mato Grosso do Sul, seguindo orientação do diretório nacional. A legenda também declarou apoio a Soraya Thronicke (PSB) e Vander Loubet (PT) para o Senado.

Com 17 deputados federais eleitos em 2022, o PDT contribui para ampliar o tempo de propaganda da aliança de esquerda, que deve chegar a cerca de 22% do tempo total de rádio e televisão, somando PDT, Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e PSB.

O partido tenta reconstruir sua presença no Estado após anos de perda de quadros e influência. Hoje não possui representação na Câmara Municipal de Campo Grande e disputa na Justiça Eleitoral a vaga deixada após a saída de Marquinhos Trad para o PV.

Negócios, energia solar e política se cruzam

A corrida eleitoral ganhou ainda um componente empresarial. A reportagem revelou que o ex-secretário estadual Jaime Verruck, agora candidato a deputado federal pelo Republicanos, divide indiretamente participação societária em uma usina de energia solar em Anastácio com Cláudio George Mendonça, dirigente licenciado do Sebrae/MS e primeiro suplente de Capitão Contar (PL).

A empresa Sol 67 Ltda foi constituída em abril de 2024 com capital de R$ 300 mil e está ligada a outras empresas do setor de energia fotovoltaica. O caso chama atenção porque envolve personagens que transitaram por áreas estratégicas do desenvolvimento econômico estadual e por instituições do Sistema S.

PSOL-Rede aposta em chapa majoritariamente feminina

Na esquerda, a Federação PSOL-Rede homologou a candidatura de Lucien Rezende ao governo e apresentou uma chapa com maioria de mulheres, além de candidatos indígenas, professores e lideranças sindicais. O partido afirma querer elevar o debate programático e se apresentar como alternativa de esquerda independente no Estado.

Novo encerra calendário e define cenário final

O Partido Novo realiza nesta quarta-feira (5) a última convenção do calendário eleitoral em Mato Grosso do Sul, encerrando oficialmente o período de definição das candidaturas. A expectativa é que o deputado estadual João Henrique Catan seja confirmado na disputa pelo governo estadual. O calendário de convenções termina hoje, conforme o prazo da Justiça Eleitoral.

Com as chapas praticamente fechadas, o desenho da eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul entra em uma nova fase. A partir de agora, a disputa deixa de ser apenas por alianças e passa a ser por sobrevivência política. Em um cenário de poucas vagas, muitas candidaturas competitivas e regras que favorecem estratégias matemáticas, cada voto vale mais do que nunca — e cada desistência pode valer uma cadeira em Brasília.