Cidades Escândalo na Saúde
Bebês e até mortos ‘assinaram’ exames fantasmas em esquema que desviou R$ 4 milhões da Saúde em MS
Operação Auditus aponta que 83% dos atendimentos pagos por Nioaque entre 2022 e 2025 teriam sido simulados; cinco pessoas foram presas
14/08/2026 14h45
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução0

O que deveria representar atendimento médico à população terminou transformado, segundo as investigações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, em um esquema de fraude contra os cofres públicos. A segunda fase da Operação Auditus, deflagrada pelo Gecoc e pelo Gaeco, revelou que listas usadas para comprovar consultas e exames pagos pela Prefeitura de Nioaque continham bebês, crianças e até pessoas que já haviam morrido.

Cinco pessoas foram presas preventivamente e 12 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Nioaque, Jardim, Bela Vista, Guia Lopes da Laguna e Bonito. O prejuízo estimado somente em Nioaque chega a R$ 4 milhões, segundo o Gecoc. A investigação aponta que aproximadamente 83% dos exames e consultas pagos pelo município entre 2022 e 2025 teriam sido simulados.

Fraude teria transformado pacientes em nomes no papel

A investigação aponta que o grupo utilizava listas de atendimento aparentemente regulares para justificar pagamentos por serviços que, em grande parte, não teriam sido realizados.

Segundo o Gecoc, eram utilizados mecanismos como falsificação de assinaturas de pacientes e profissionais de saúde, duplicação de registros, inclusão de pessoas mortas e lançamento de procedimentos incompatíveis com a idade dos supostos pacientes. Também foram identificados exames sem laudos e procedimentos sem respaldo clínico.

Um dos casos mais absurdos encontrados pelos investigadores envolve crianças. Uma menina de 11 meses e outra de 3 anos aparecem em listas como se tivessem assinado documentos de atendimento. A investigação também encontrou registros de consultas com angiologista atribuídas a duas pessoas que já haviam morrido antes das datas indicadas para os atendimentos.

O esquema teria chegado ainda a exames de triagem neonatal. Mães de crianças que apareciam em listas referentes ao teste da orelhinha, por exemplo, afirmaram que os filhos nunca haviam realizado os procedimentos pela clínica investigada.

Contrato explodiu e gastos dispararam

A investigação aponta que o volume de recursos movimentados cresceu de maneira expressiva durante o período investigado. Segundo o Gecoc, os gastos com serviços médicos contratados pelo município aumentaram 1.713% entre 2022 e 2025.

O contrato envolvendo a clínica investigada teria saltado de aproximadamente R$ 43 mil para cerca de R$ 4,2 milhões em 2022, período apontado como ápice do esquema.

O Ministério Público estima que o prejuízo aos cofres de Nioaque chegou a aproximadamente R$ 4 milhões, com a maior parte dos exames e consultas pagos sem comprovação efetiva de realização.

Clínica no centro da investigação

A empresa investigada é a Prontomed Clínica Médica, atualmente denominada Policlínica Rota Bioceânica, localizada em Jardim. O estabelecimento pertence ao médico-legista Robson Roosevelt Ferreira Aguilar, que também foi preso na operação.

Além dele, foram presos Bianca Fernandes Leite Aguilar, Tatiane Barbosa de Souza Grubert, Márcia Cristiane Missioneira Jara e Vagner Alves Ribeiro Guimarães. A investigação aponta participação de agentes públicos e privados na estrutura que teria permitido o direcionamento de contratações e a execução das fraudes.

Robson também é servidor público estadual e atuava como perito oficial forense. Após a prisão, foi afastado das funções públicas relacionadas à Polícia Científica, enquanto a Corregedoria instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos.

Fraude teria ultrapassado Nioaque

O caso ganhou proporções ainda maiores porque, segundo o Gecoc, o suposto esquema não teria ficado restrito a Nioaque. As investigações apontam que o mesmo modelo de atuação teria sido levado para Guia Lopes da Laguna e Bela Vista.

Em Guia Lopes, a clínica recebeu aproximadamente R$ 944,8 mil entre 2022 e 2025 por serviços médicos, exames de raio-X, cardiologia, pediatria, ortopedia e ultrassonografias, conforme levantamento citado na investigação.

Em Bela Vista, investigadores apontam que teria havido tentativa de reprodução do mesmo modelo de contratação utilizado em Nioaque. A prefeitura, contudo, informou que a empresa mencionada na investigação não possuiu contrato nem recebeu pagamentos do município.

Dinheiro público pago por atendimento que pode nunca ter acontecido

O caso expõe uma das faces mais graves da corrupção na área da saúde: o uso de documentos aparentemente oficiais para transformar atendimentos inexistentes em despesas públicas.

A própria operação recebeu o nome de Auditus porque a investigação começou a partir de indícios relacionados à simulação de exames auditivos e posteriormente identificou suspeitas envolvendo diferentes tipos de consultas, exames e procedimentos.

Agora, com cinco prisões e dezenas de mandados cumpridos, o Ministério Público busca dimensionar toda a extensão do esquema e identificar a participação de cada envolvido. A investigação segue em andamento, e os presos são suspeitos, não condenados, até eventual decisão judicial definitiva.0