A crise econômica que vem apertando o consumo no Brasil já bateu às portas de Mato Grosso do Sul. O exemplo mais recente é o da Casas Bahia, que fechou sete lojas no Estado, demitiu trabalhadores e agora recorre à recuperação judicial para tentar sobreviver a uma dívida declarada de R$ 17,3 bilhões.
O tombo não ficou restrito a grandes centros. Em Mato Grosso do Sul, foram encerradas unidades em Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Naviraí, Ponta Porã e Nova Andradina — Dourados perdeu duas lojas. Em todo o país, a empresa fechou 298 estabelecimentos e anunciou cerca de 3 mil desligamentos.
O caso escancara o impacto de um ambiente econômico marcado por juros ainda muito elevados, crédito caro, endividamento das famílias e perda de dinamismo do consumo. Reportagens recentes apontam que a Selic chegou a 15% e permanece em patamar elevado, pressionando tanto o financiamento das empresas quanto as compras parceladas dos consumidores.
Em Campo Grande, o fechamento atingiu uma unidade localizada em shopping na região do Nova Lima. Os desligamentos foram comunicados na sexta-feira (14), às vésperas do pedido de recuperação judicial.
Agora, os trabalhadores demitidos podem ter de esperar o desenrolar do processo para receber parte das verbas rescisórias. A recuperação judicial envolve dez empresas do grupo e inclui cerca de R$ 754 milhões em obrigações trabalhistas.
A prioridade legal dos créditos trabalhistas não significa dinheiro imediato no bolso. Os pagamentos dependerão das regras e do plano que será apresentado pela companhia e submetido aos credores.
Para quem perdeu o emprego, portanto, a crise da gigante varejista não é uma estatística: é renda familiar ameaçada e incerteza sobre quando receberá aquilo que lhe é devido.
A Casas Bahia chega à recuperação judicial depois de registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. A companhia informou que R$ 9,1 bilhões desse resultado decorreram de efeitos contábeis sem impacto imediato no caixa, mas o prejuízo ajustado ainda ficou em R$ 978 milhões.
A empresa também trabalha com uma perspectiva pouco animadora para o próximo ano. O presidente-executivo Renato Franklin afirmou que a companhia considera um cenário macroeconômico ainda mais difícil em 2027, especialmente diante da possibilidade de deterioração do crédito ao consumidor.
O problema, porém, ultrapassa uma única empresa. Entre junho de 2025 e junho de 2026, o número de empresas do varejo em recuperação judicial aumentou 20,4%, segundo levantamento. Juros altos, crédito restrito, endividamento das famílias e concorrência do comércio eletrônico aparecem entre os fatores que pressionam o setor.
O discurso oficial do governo federal ainda aponta crescimento econômico. O Ministério da Fazenda mantém projeção de 2,3% para o PIB brasileiro em 2026, embora tenha elevado a previsão de inflação para 5,1%.
Na ponta, entretanto, os sinais de desaceleração preocupam. O IBC-Br caiu 0,64% em junho, enquanto analistas vêm reduzindo as expectativas de crescimento para abaixo de 2% em algumas projeções.
É nesse ambiente que o varejo precisa sobreviver: empresas enfrentando custo financeiro elevado, consumidores com crédito mais caro e famílias cada vez mais cautelosas antes de assumir novas dívidas.
A política econômica do governo Lula é alvo de críticas justamente por não conseguir produzir, até agora, um ambiente de juros e crédito suficientemente favorável para o consumo e para os investimentos. Ao mesmo tempo, é importante registrar que a crise da Casas Bahia não pode ser atribuída exclusivamente ao governo federal: a própria companhia cita fatores como problemas acumulados, reestruturações, dificuldades de captação, mudanças no mercado e impactos da pandemia.
O fechamento das sete lojas mostra como as consequências de uma crise empresarial nacional chegam rapidamente ao Estado. São postos de trabalho eliminados, imóveis comerciais que deixam de receber consumidores, fornecedores afetados e menor circulação de dinheiro nas cidades.
Em Mato Grosso do Sul, o impacto se espalha por Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Naviraí, Ponta Porã e Nova Andradina.
A Casas Bahia ainda tenta evitar um desfecho mais grave. O grupo busca financiamento de até R$ 1 bilhão para recompor o caixa e os estoques enquanto reorganiza suas dívidas.
O episódio serve, porém, como um alerta para a economia brasileira: quando crédito fica caro, o consumidor compra menos; quando vende menos, o comércio corta custos; quando os custos não fecham, lojas fecham e empregos desaparecem.
E, desta vez, a conta da crise chegou também às ruas de Mato Grosso do Sul.