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Fim da tolerância: Prefeitura aperta cerco e ameaça tirar ônibus sucateados do Consórcio Guaicurus das ruas
Nova fiscalização prevê inspeções semestrais nos veículos mais antigos, multa e apreensão de ônibus reprovados durante a intervenção municipal
20/08/2026 16h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

A Prefeitura de Campo Grande decidiu endurecer a fiscalização sobre a frota do Consórcio Guaicurus e estabeleceu novas regras para impedir que ônibus sem condições adequadas de segurança continuem transportando passageiros pela Capital.

A medida foi oficializada nesta quinta-feira (20), por meio de portaria da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), durante a intervenção municipal no sistema de transporte coletivo, iniciada em junho. As novas regras determinam inspeções obrigatórias nos veículos e colocam sobre o próprio Consórcio a responsabilidade pelos custos dos procedimentos.

A decisão ocorre em meio a um cenário de forte desgaste da frota. Dados apresentados pelo Município à Justiça apontaram que 81 certificados de interdição foram emitidos em 2025. Além disso, levantamento de abril deste ano identificou 448 ônibus em circulação, incluindo veículos fabricados em 2010, 2011 e 2012.

Ônibus reprovado ficará fora das ruas

A nova regra busca atacar diretamente o problema que há anos provoca reclamações dos passageiros: veículos antigos, com falhas e condições inadequadas de conservação.

As inspeções vão verificar itens essenciais de segurança, como freios, suspensão, direção, eixos, pneus, sinalização, cintos de segurança e equipamentos de acessibilidade.

Também haverá fiscalização ambiental, com medição de emissão de gases poluentes, material particulado e níveis de ruído. Os procedimentos deverão ser realizados por empresas credenciadas como Instituições Técnicas Licenciadas (ITLs).

O resultado da vistoria terá consequência direta para a operação. Ônibus reprovados serão impedidos de transportar passageiros até que os problemas sejam corrigidos e uma nova inspeção seja realizada.

Quem não cumprir o calendário de vistoria também poderá sofrer sanções, incluindo multa e apreensão do veículo.

Fiscalização será mais rigorosa nos ônibus antigos

A idade do ônibus vai determinar a frequência das inspeções.

Os veículos que estiverem dentro do limite previsto para a frota passarão por vistoria uma vez por ano. Já aqueles que ultrapassaram a idade máxima contratual terão de ser avaliados a cada seis meses.

A medida é especialmente relevante diante do tamanho da frota envelhecida. Dos 448 ônibus identificados no levantamento de abril, 12 foram fabricados em 2010, 69 em 2011 e 87 em 2012. Também há 36 veículos de 2014 e 81 fabricados em 2016.

O relatório final da CPI do Transporte da Câmara Municipal já havia apontado um quadro grave: 197 veículos circulavam com a idade útil máxima vencida, enquanto a idade média da frota chegava a 8,59 anos, acima do limite contratual de cinco anos citado no documento. A comissão também registrou problemas como elevadores inoperantes, bancos danificados e falhas de ar-condicionado.

Consórcio terá de pagar a conta

Outro ponto importante da portaria é que o custo das inspeções ficará integralmente com o Consórcio Guaicurus.

A Agetran considera que manutenção, conservação e adequação da frota já fazem parte das obrigações da concessionária previstas no contrato. Portanto, a fiscalização não representa uma nova despesa para os cofres municipais.

A Prefeitura também terá acesso aos laudos das inspeções, inclusive dos veículos reprovados, permitindo maior controle sobre quais ônibus estão efetivamente autorizados a circular.

Prefeitura tenta evitar falta de ônibus

A fiscalização terá de ser feita sem provocar um novo problema para os usuários: a redução da quantidade de ônibus disponíveis nas linhas.

Por isso, o Consórcio terá 30 dias para apresentar um cronograma escalonado das inspeções. A regra limita a quantidade de veículos que poderá permanecer simultaneamente fora de operação durante as vistorias, com utilização da frota reserva para compensar eventuais retiradas temporárias.

A preocupação é evitar que a retirada de ônibus antigos resulte em intervalos ainda maiores, superlotação e prejuízo aos passageiros.

Problema antigo volta ao centro da crise

A nova fiscalização coloca novamente em evidência uma das principais fragilidades do transporte coletivo de Campo Grande: a dificuldade de renovar a frota dentro dos padrões previstos no contrato de concessão.

Em 2025, a Prefeitura chegou a determinar a retirada de 98 ônibus que estavam acima dos limites de idade estabelecidos contratualmente.

O próprio relatório da CPI apontou que a frota deveria ter idade média de cinco anos, mas apresentava média superior a oito anos.

Agora, durante a intervenção municipal, a Prefeitura tenta colocar um limite mais claro: ônibus que não apresentarem condições mínimas de segurança não poderão continuar nas ruas simplesmente por falta de renovação da frota.

Para o passageiro, a expectativa é que a nova regra transforme a fiscalização em uma barreira efetiva contra veículos em condições precárias e obrigue a concessionária a apresentar uma frota mais segura, regular e compatível com as exigências do serviço público.