Saúde Crise na saúde
Saúde pública de Campo Grande entra no limite com exames básicos fora da rede
Falhas no atendimento atingem procedimentos essenciais e revelam problemas recorrentes no abastecimento de insumos; alguns exames estão indisponíveis há meses
21/08/2026 14h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

A falta de exames laboratoriais em unidades de saúde de Campo Grande expõe mais uma fragilidade da rede pública municipal. Procedimentos importantes para diagnóstico, acompanhamento e prevenção de doenças estão indisponíveis em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Unidades Básicas de Saúde (UBSs), enquanto a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) admite que a oferta enfrenta “ajustes administrativos”.

O problema chama atenção principalmente pelo tempo de interrupção de alguns serviços. O coagulograma, por exemplo, estaria sem oferta há mais de oito meses. Já a urina tipo 1 não estaria disponível há mais de quatro meses, enquanto exames de microalbuminúria e proteínas urinárias estão sem oferta há mais de 40 dias.

Não se trata apenas de uma relação extensa de procedimentos. Entre os exames comprometidos estão testes utilizados na investigação e acompanhamento de alterações metabólicas, cardíacas, renais, infecciosas e hormonais.

A lista inclui glicose, ureia, sódio, potássio, magnésio, CK total, CK-MB, troponina, fosfatase alcalina, vitamina D, T3 total, exames de urina, além de testes para toxoplasmose, hepatite A, citomegalovírus e Anti-HBs.

Falha no abastecimento volta a colocar a rede sob pressão

A situação também chama atenção porque a falta de exames não é um episódio isolado na saúde municipal.

Em fevereiro deste ano, atrasos na reposição de insumos já haviam provocado suspensão temporária de exames e procedimentos em unidades da Capital, incluindo coleta de sangue.

O histórico mostra que problemas relacionados ao fornecimento de reagentes e materiais podem comprometer diretamente a capacidade da rede de realizar diagnósticos e acompanhar pacientes.

Em 2025, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) chegou a instaurar investigação depois de denúncias sobre a indisponibilidade de exames preventivos na rede pública de Campo Grande. Na ocasião, diligências identificaram falhas no fornecimento de reagentes e problemas relacionados a atrasos contratuais e logísticos.

Exames que não chegam podem atrasar diagnósticos

A interrupção de exames laboratoriais pode produzir um efeito em cadeia dentro do SUS: sem o resultado, consultas podem precisar ser remarcadas, tratamentos podem ser adiados e investigações clínicas podem permanecer inconclusivas.

A preocupação aumenta quando a indisponibilidade envolve exames utilizados no acompanhamento de doenças crônicas ou no pré-natal. Entre os procedimentos listados estão exames relacionados ao acompanhamento de pacientes diabéticos, hipertensos e com alterações renais, além de testes utilizados durante a gestação.

Na prática, uma falha administrativa na aquisição ou distribuição de insumos pode acabar transferindo para o paciente o custo da espera.

Sesau promete normalização

Procurada sobre a situação, a Sesau afirmou que a oferta de alguns exames está passando por “ajustes administrativos” e informou que medidas já foram adotadas para regularizar o serviço nos próximos dias.

A secretaria também declarou que acompanha a situação e trabalha para garantir a continuidade e ampliação da assistência.

A resposta, entretanto, não detalha quais contratos ou fornecedores estão envolvidos, quais exames serão normalizados primeiro nem apresenta um cronograma específico para cada procedimento.

Problema exige mais que promessa de regularização

A rede municipal precisa esclarecer não apenas quando os exames voltarão a ser oferecidos, mas também o que provocou interrupções que, em alguns casos, já se arrastam por meses.

O cenário é especialmente preocupante porque a própria Prefeitura anunciou, em junho, a chegada de novos equipamentos com a promessa de ampliar a oferta de exames e avaliações na Atenção Primária.

O contraste entre a ampliação anunciada e a indisponibilidade de procedimentos básicos reforça uma questão central para a população: não basta ampliar equipamentos e serviços no papel se faltam reagentes e insumos para colocar o atendimento em funcionamento.

Para quem depende exclusivamente do SUS, cada exame indisponível representa mais um obstáculo entre a consulta, o diagnóstico e o tratamento. E, quando a espera se prolonga por meses, o que deveria ser uma simples etapa do atendimento passa a ser mais um sinal da fragilidade da saúde pública de Campo Grande.