A eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul está desmontando certezas construídas na campanha de 2022. Adversários que trocaram acusações, fizeram oposição e chegaram a protagonizar disputas duríssimas agora aparecem lado a lado, enquanto antigos aliados caminham em campos opostos. Em uma disputa marcada por alianças improváveis, o eleitor terá de acompanhar mais do que os discursos: será preciso entender quem está com quem — e, principalmente, por quê.
O exemplo mais emblemático é o reencontro político entre Capitão Contar, Eduardo Riedel e Reinaldo Azambuja. Em 2022, Contar foi ao segundo turno contra Riedel e construiu sua candidatura justamente sobre o discurso de enfrentamento ao grupo que comandava o Estado. Hoje, os três estão no mesmo campo político, com Contar concorrendo ao Senado pelo PL ao lado de Reinaldo e apoiando a reeleição de Riedel.
A mudança é tão radical que Contar chegou a pedir desculpas a prefeitos durante encontro político realizado com Riedel e Reinaldo. Segundo relatos divulgados após o evento, o então candidato de oposição se retratou por críticas feitas durante a campanha passada.
A matemática eleitoral também ajuda a explicar a aproximação. Pesquisa Quaest divulgada nesta semana mostra Riedel com 40% das intenções de voto para o Governo, contra 13% de Fábio Trad, 8% de Delcídio Amaral, 3% de João Henrique Catan e 2% de Lucien Rezende.
Em 2022, Contar chegou ao segundo turno como o nome que prometia romper com o grupo político de Riedel e Reinaldo. Quatro anos depois, a realidade é outra.
O ex-deputado estadual agora disputa uma das duas vagas ao Senado pelo PL e aparece no mesmo projeto eleitoral de Reinaldo Azambuja. A estratégia coloca os dois no mesmo palanque e transforma antigos adversários em parceiros de campanha.
O movimento não é apenas simbólico. Pesquisa Quaest divulgada nesta semana aponta Reinaldo na liderança da corrida pelo Senado, com 22%, seguido por Contar, com 15%. Soraya Thronicke aparece com 11% e Vander Loubet com 9%, configurando uma disputa apertada pela segunda vaga dentro da margem de erro.
A reviravolta fica ainda mais evidente quando se olha para João Henrique Catan.
Em 2022, Catan esteve ao lado de Contar na campanha ao Governo, percorrendo o Estado e defendendo uma mudança no comando político de Mato Grosso do Sul. Agora, filiado ao Novo, ele disputa o Governo contra Riedel e se apresenta justamente como uma alternativa ao sistema político tradicional.
Ou seja: quem estava no mesmo palanque agora está em lados opostos, enquanto quem era adversário passou a dividir espaço na mesma chapa.
Outra mudança significativa ocorreu entre Riedel e o PT.
No segundo turno de 2022, o então candidato recebeu apoio de lideranças petistas, incluindo Vander Loubet e Zeca do PT. O cenário mudou completamente para 2026.
Vander disputa uma vaga ao Senado pelo PT, enquanto Fábio Trad é o candidato petista ao Governo. A família Trad, que já teve Marquinhos Trad enfrentando Riedel na eleição anterior, volta ao centro da disputa, agora com Fábio no campo de oposição.
A pesquisa Quaest mostra Fábio Trad em segundo lugar na corrida pelo Governo, com 13%, ainda distante dos 40% de Riedel, mas consolidado como principal nome da oposição no levantamento.
No Senado, a situação é ainda mais curiosa.
Um áudio divulgado nas redes sociais expôs uma possível agenda política envolvendo Reinaldo Azambuja, do PL, e Vander Loubet, do PT, dois nomes que representam campos políticos historicamente adversários. A informação sobre a reunião foi divulgada pelo Investiga MS e envolve também o governador Eduardo Riedel e o prefeito de Paranaíba, Maycol Queiroz.
A movimentação não seria um caso isolado.
O prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro, que é do PL, já declarou apoio a Vander e Reinaldo para o Senado e afirmou que não apoiará Contar.
Vander também vem ampliando seu arco de apoios entre prefeitos. Levantamento divulgado pelo Midiamax aponta que mais de 40 prefeitos já manifestaram apoio ao petista, incluindo nomes ligados ao campo bolsonarista.
É a velha lógica eleitoral funcionando a pleno vapor: na disputa por duas cadeiras, o segundo voto pode aproximar quem jamais imaginaria dividir uma campanha.
A movimentação entre prefeitos mostra que a eleição para o Senado terá uma lógica diferente da disputa pelo Governo.
Reinaldo afirmou em reunião com prefeitos que não faria oposição a quem decidisse apoiar outro candidato, desde que seu nome não fosse utilizado para respaldar essa escolha. O ex-governador mantém a parceria com Contar, mas reconhece que os prefeitos terão liberdade para construir suas próprias estratégias eleitorais.
O cenário revela uma eleição muito mais pragmática do que ideológica em algumas regiões do Estado.
Como se as alianças já não fossem suficientes para embaralhar o cenário, a Justiça Eleitoral suspendeu a divulgação de uma pesquisa do Instituto Veritá após representação da federação que reúne partidos da coligação de Riedel e Reinaldo.
Segundo a representação, o instituto registrou no TSE 206 pesquisas em 2026, somando R$ 26,68 milhões em valores declarados, sendo 199 apontadas como autofinanciadas. A coligação questionou a capacidade financeira apresentada pelo instituto para bancar os levantamentos.
O material também questiona a origem dos recursos e outros aspectos metodológicos da pesquisa. A decisão suspendeu a divulgação dos resultados enquanto o caso tramita, em medida descrita como excepcional para preservar a regularidade do processo eleitoral.
A suspensão, contudo, não significa que a pesquisa tenha sido considerada fraudulenta ou que seus resultados tenham sido declarados falsos. Trata-se de uma decisão judicial dentro de uma representação eleitoral ainda em andamento.
Apesar de toda essa movimentação nos bastidores, a campanha em Mato Grosso do Sul ainda não ganhou as ruas na intensidade esperada. O início da propaganda eleitoral e os debates devem testar a resistência das alianças e obrigar candidatos a explicar ao eleitor mudanças que, olhando apenas para 2022, parecem improváveis.
O eleitor que acompanhou a última eleição pode se surpreender ao encontrar Contar no mesmo palanque de Riedel e Reinaldo, Catan enfrentando antigos aliados, Fábio Trad disputando o Governo pelo PT e Vander buscando votos inclusive entre prefeitos ligados ao PL.
No fim das contas, a eleição de 2026 reforça uma velha regra da política: adversários de ontem podem ser aliados de hoje — e aliados de hoje podem virar adversários amanhã.
E, em Mato Grosso do Sul, essa dança de cadeiras está apenas começando.