A crise financeira da Santa Casa de Campo Grande voltou a bater na porta do atendimento público — e, desta vez, já deixou marcas dentro do hospital. Depois de um acordo de R$ 54,1 milhões firmado no fim de 2025 para impedir uma paralisação e colocar pagamentos atrasados em dia, a instituição novamente enfrenta falta de recursos, atraso a profissionais e risco de desabastecimento.
O cenário levou o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) a convocar reuniões emergenciais com representantes da Santa Casa, da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). Os encontros ocorreram em 24 e 28 de agosto e tiveram como objetivo evitar que a crise financeira avance para medicamentos, gases medicinais, insumos e serviços laboratoriais.
O alerta é grave porque o problema já ultrapassou a esfera administrativa. A saída em massa de médicos, motivada por mais de quatro meses de salários atrasados, provocou o fechamento da ala de cirurgia cardíaca pediátrica, serviço que era referência para pacientes de Mato Grosso do Sul.
E não foi o único impacto. Segundo o Sindicato dos Médicos, também houve desligamentos nas áreas de urologia e neurocirurgia, além de sinalização de saída de profissionais da anestesiologia.
O dinheiro que chegou no fim do ano passado tinha justamente a missão de impedir que a Santa Casa parasse. O acordo mediado pelo MPMS destinou R$ 54,1 milhões à instituição, permitindo o pagamento de profissionais que acumulavam mais de seis meses de atrasos e ajudando a manter os serviços funcionando.
Mas o socorro emergencial não atacou a origem do problema.
Ainda em dezembro, o próprio MPMS apontava que a Santa Casa continuava operando com déficit mensal estimado em cerca de R$ 12 milhões. Em julho deste ano, a direção informou que o rombo mensal já ultrapassava R$ 13 milhões.
Na prática, o hospital recebeu uma injeção financeira para atravessar uma emergência, mas voltou a enfrentar dificuldades meses depois.
O episódio mais emblemático da nova crise é o fim da equipe responsável pelas cirurgias cardíacas pediátricas.
Com meses de pagamentos atrasados, médicos contratados como pessoa jurídica decidiram deixar o hospital. A Santa Casa confirmou os desligamentos, enquanto o Sindicato dos Médicos alertou para o impacto direto sobre a assistência.
A consequência foi imediata: a unidade perdeu a equipe que sustentava o serviço de cirurgia cardíaca pediátrica e comunicou que a especialidade seria descredenciada.
Para um Estado que concentra atendimentos de alta complexidade na Capital, o fechamento representa uma perda significativa na rede pública e aumenta a pressão sobre outros hospitais.
A crise financeira também começa a aparecer nas prateleiras e nos estoques.
A direção da Santa Casa informou que os estoques de insumos chegaram a níveis críticos e que os materiais disponíveis estavam sendo priorizados para pacientes já internados. Cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais foram afetados.
O risco levou o MPMS a colocar no centro das discussões não apenas os salários, mas também o abastecimento de medicamentos, gases medicinais, insumos e serviços laboratoriais.
Ou seja: o problema deixou de ser apenas uma dívida administrativa e passou a representar uma ameaça à capacidade do hospital de manter a assistência funcionando normalmente.
A direção da Santa Casa sustenta que a situação é consequência, entre outros fatores, do subfinanciamento do SUS e da defasagem dos valores pagos pelos serviços prestados.
Segundo a instituição, a dívida acumulada gira em torno de R$ 600 milhões. Para tentar reverter o cenário, o hospital recorreu à Justiça em diversas ações e calcula ter R$ 757,2 milhões a receber em processos judiciais.
O maior processo envolve a chamada defasagem da Tabela SUS. A Santa Casa estima que poderia receber R$ 678,5 milhões nessa ação, que tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A direção argumenta que os valores pagos pelo SUS não acompanharam o custo real da assistência e que contratos públicos também precisam ser reequilibrados.
A Prefeitura de Campo Grande afirma que os repasses referentes ao convênio municipal estão em dia e que a gestão dos profissionais é responsabilidade da própria Santa Casa. A Sesau informou ainda que acompanha a execução dos serviços contratualizados e que poderá adotar providências diante de alterações na oferta de atendimento.
Enquanto isso, o MPMS mantém a pressão para impedir que a crise financeira se transforme em desassistência.
Em abril, o Ministério Público já havia sustentado judicialmente que não era aceitável encaminhar pacientes para um hospital em condições precárias, citando superlotação superior a 500% da capacidade instalada, falta de insumos básicos e paralisações relacionadas à ausência de pagamento de profissionais.
Agora, meses depois, a situação volta a exigir intervenção.
A questão que permanece é simples e urgente: quanto tempo a Santa Casa consegue continuar funcionando no limite antes que a crise financeira se transforme em uma crise ainda maior na saúde pública de Mato Grosso do Sul?