Mato Grosso do Sul enfrenta em 2026 um dos cenários mais preocupantes dos últimos anos na área de saúde mental. Até agosto, 243 pessoas morreram por suicídio no Estado, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). O número equivale, em média, a uma morte por dia e representa o maior volume registrado para os oito primeiros meses do ano desde 2016.
A dimensão do alerta fica ainda mais evidente quando os dados são colocados lado a lado com outra causa de morte que mobiliza campanhas permanentes. No mesmo período, foram registradas 232 mortes em acidentes de trânsito, 11 a menos que os óbitos por suicídio.
O cenário ganha destaque nesta quinta-feira (10), Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, dentro das ações do Setembro Amarelo, campanha que busca romper o silêncio em torno do sofrimento emocional e estimular a busca por ajuda.
Os números também revelam uma diferença expressiva entre homens e mulheres. Das 243 mortes contabilizadas até agosto, 189 foram de homens e 54 de mulheres.
A faixa etária mostra que o problema atravessa diferentes gerações. Foram 126 mortes entre adultos, 90 envolvendo jovens e adolescentes e 27 entre idosos.
Na primeira semana de setembro, o Estado registrou mais sete mortes, mantendo a preocupação com a continuidade da ocorrência mesmo durante o mês dedicado à prevenção.
Especialistas alertam que o suicídio não pode ser associado automaticamente a um acontecimento específico. Situações de crise podem estar relacionadas a um conjunto de fatores psicológicos, familiares, sociais, econômicos e culturais, além de histórico de sofrimento e eventual uso abusivo de substâncias.
Por isso, mudanças persistentes no comportamento precisam ser observadas com atenção. Isolamento, alterações importantes no sono ou na alimentação, crises recorrentes de ansiedade, perda de interesse pelas atividades cotidianas e manifestações de desesperança podem indicar que alguém está enfrentando um sofrimento que exige ajuda.
Também merecem atenção comportamentos incomuns, especialmente quando surgem de maneira repentina e acompanhados de outros sinais de crise.
A prevenção começa muitas vezes dentro de casa, entre amigos, colegas de trabalho e pessoas próximas. Mas acolher alguém em sofrimento exige mais do que oferecer frases prontas.
Comentários que minimizam a dor ou tentam convencer a pessoa de que “a vida é bela” podem produzir o efeito contrário. O mais importante é escutar sem julgamento, demonstrar disponibilidade e incentivar a procura por ajuda profissional.
O objetivo não é encontrar uma explicação rápida para o sofrimento, mas permitir que a pessoa fale sobre o que está vivendo e perceba que existe uma rede de apoio.
Em Mato Grosso do Sul, a mobilização não se limita às ações realizadas neste mês. A campanha foi incorporada ao calendário estadual pela Lei nº 4.777/2015 e outras normas posteriores ampliaram as políticas de prevenção.
Entre elas está a legislação que criou a Semana de Prevenção e Combate à Violência Autoprovocada, realizada anualmente em setembro. Outra iniciativa, aprovada mais recentemente, criou o “Setembro Amarelo vai à Escola”, estimulando atividades educativas sobre prevenção da automutilação e do suicídio.
A ampliação das ações é considerada estratégica diante do número de jovens e adolescentes atingidos pelo problema.
O sofrimento emocional não precisa ser enfrentado sozinho. O CVV oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, além de atendimento por canais digitais.
Também é possível procurar uma unidade do CAPS, uma UBS ou USF. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar atendimento de urgência ou acionar o SAMU pelo 192.
O Setembro Amarelo reforça uma mensagem que precisa permanecer durante todo o ano: perceber sinais, conversar sem julgamento e ajudar alguém a buscar atendimento pode fazer diferença em um momento de crise.