Geral Corrupção
Enquanto Santa Casa enfrentava crise, contrato de prontuários teve superfaturamento de 746%, aponta MPE
Investigação da Operação Antidotum aponta pagamento de R$ 750 mil por serviço que, segundo o Ministério Público, custaria R$ 88,6 mil; hospital vivia crise com falta de medicamentos e insumos
15/09/2026 14h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

contrato previa a digitalização de até 3 milhões de páginas por mês. Porém, entre janeiro e abril de 2025, a produção registrada teria alcançado 3.818.695 páginas, valor que, segundo o cálculo apresentado na investigação, corresponderia a aproximadamente R$ 88,6 mil.

Apesar disso, foram autorizados pagamentos que chegaram a R$ 750 mil, segundo a denúncia.

O Ministério Público aponta que a diferença entre o serviço efetivamente comprovado e os valores pagos resultou em um prejuízo de aproximadamente R$ 661 mil nesse cálculo, enquanto o Conselho Fiscal da instituição teria identificado anteriormente um desvio de R$ 511 mil e recomendado a suspensão dos pagamentos à empresa em agosto de 2025.

A prestação dos serviços teria sido atestada por Romano e pelo então gerente Alessandro Dias Junqueira, que autorizaram pagamentos mensais de R$ 150 mil, conforme a investigação.

Empresas teriam sido usadas para simular concorrência

Um dos elementos que sustentam a suspeita de fraude é a relação entre as três empresas que participaram da cotação.

A investigação aponta que Benites teria mantido vínculos de direção ou controle sobre as empresas utilizadas na disputa. No caso da Exbe, apesar da alteração formal do quadro societário, o empresário continuaria sendo apresentado como CEO em seu perfil profissional.

Os investigadores também identificaram semelhanças entre as propostas apresentadas pelas empresas, incluindo estrutura, expressões e organização dos documentos.

Outro ponto considerado suspeito foi a relação operacional entre as empresas. Embora a Redvalue estivesse oficialmente sediada em Goiânia (GO), a investigação aponta vínculos com Campo Grande, incluindo a utilização de instituição financeira da Capital e endereço relacionado à Exbe.

Para o MPE, os elementos reunidos indicam que a concorrência teria sido artificialmente criada para dar aparência de regularidade à contratação.

Conselho Fiscal descobriu diferença nos pagamentos

O próprio Conselho Fiscal da Santa Casa teria identificado que os pagamentos feitos à Redvalue não correspondiam à produção comprovada.

A análise levou o colegiado a recomendar a interrupção dos pagamentos e o aprofundamento das investigações. Posteriormente, o caso passou a integrar a apuração do Gecoc e do Gaeco.

O Ministério Público também afirma não ter encontrado justificativa técnica suficiente para a escolha da Redvalue nem documentação que comprovasse a qualificação da empresa para prestar o serviço em um hospital de grande porte.

Dinheiro era disputado em meio à crise

A investigação ganha contornos ainda mais graves porque os fatos ocorreram durante um dos períodos mais críticos da história recente da Santa Casa.

Na época, médicos chegaram a registrar ocorrência policial relatando a falta de medicamentos, insumos e materiais hospitalares e alertando para o risco enfrentado pelos pacientes. O cenário de escassez contribuiu para uma crise que afetou diretamente o atendimento hospitalar.

É nesse contexto que o Ministério Público aponta negociações envolvendo valores milionários.

Segundo a denúncia, dados obtidos durante a investigação revelaram conversas sobre a forma de pagamento de R$ 1,8 milhão relacionado a serviços investigados. Em uma conversa de abril de 2025, o então vice-presidente da Associação Beneficente Santa Casa, Jary de Castro Carvalho, teria explicado a Benites que o pagamento integral não poderia ser realizado naquele momento.

A justificativa, segundo os promotores, estava relacionada aos R$ 25 milhões destinados por parlamentares da bancada federal para a Santa Casa, verba que teria destinação específica para compra de medicamentos e pagamento de médicos.

Para o Ministério Público, a conversa indica que os envolvidos discutiam previamente a forma de liberar os pagamentos e que o valor teria sido fracionado para evitar chamar atenção dos mecanismos de controle.

Investigação aponta possível desvio de recursos em meio ao risco assistencial

A Operação Antidotum investiga um esquema que, segundo o Gecoc, envolveria dirigentes, empresários e outras pessoas ligadas a empresas que mantinham contratos com a Santa Casa e com a operadora de saúde da instituição.

A apuração identificou até agora R$ 4,9 milhões em prejuízos em 2025, conforme divulgado na investigação, mas o montante total ainda pode aumentar com o avanço das diligências.

O caso expõe uma contradição que agora está no centro da investigação: enquanto a Santa Casa enfrentava falta de recursos básicos para manter o atendimento e médicos alertavam para o risco aos pacientes, contratos e pagamentos passaram a ser examinados sob suspeita de superfaturamento e desvio de dinheiro.

As acusações ainda serão submetidas ao devido processo legal, e os investigados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência. A investigação continua para esclarecer a participação de cada envolvido e dimensionar o prejuízo total causado à instituição.