Saúde Saúde
Vida digital desafia convivência na terceira idade
Psicóloga explica quando a tecnologia fortalece vínculos e quando o excesso de redes sociais pode prejudicar o bem-estar e a saúde mental de pessoas idosas
23/09/2026 17h47
Por: WK Notícias Fonte: Agência Dino

A internet faz parte da rotina de uma parcela expressiva dos idosos no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas com 60 anos ou mais tiveram o maior crescimento no acesso à rede em 2025, chegando a 74,5%, ante 70,1% em 2024.

Na terceira idade, a aposentadoria, a saída dos filhos de casa, as limitações de mobilidade e a redução de algumas atividades presenciais podem modificar a maneira como uma pessoa se relaciona com o mundo, e estar conectado pode ser uma forma de acompanhar a família, conversar com amigos que moram longe e manter interesses ativos.

Mas o jeito como esses recursos são utilizados também pode impactar o bem-estar. Um estudo canadense publicado neste ano, na revista científica PLOS Global Public Health, feito com 13,5 mil pessoas com 55 anos ou mais, encontrou uma associação entre o uso de redes sociais e uma pior percepção da própria saúde mental. Em contrapartida, o uso de e-mail apresentou associação positiva com a percepção de saúde mental, indicando que diferentes meios de interação digital podem ter impactos distintos.

É nesse cenário que a tecnologia pode servir como ponte para manter relações e interesses ou, quando passa a substituir outras experiências, contribuir para uma rotina cada vez mais isolada.

De acordo com Thaís Cristina Bolonha Alexmovitz, profissional de psicologia do AmorSaúde, rede de clínicas parceiras do Cartão de TODOS, é importante compreender que a tecnologia não precisa ser vista como algo que compete com a vida real. "Quando utilizada de maneira equilibrada, ela pode justamente aproximar pessoas e facilitar a manutenção de vínculos significativos. Uma chamada de vídeo, por exemplo, não substitui necessariamente um abraço, mas pode diminuir a sensação de distância quando o encontro presencial não é possível".

Quando a tecnologia deixa de ampliar a vida e passa a limitar a rotina

Na terceira idade, a tecnologia pode cumprir uma função importante de participação social. Para quem tem filhos, netos e amigos em outras cidades ou países, chamadas de vídeo e aplicativos de mensagens ajudam a acompanhar a rotina de pessoas queridas e manter vínculos mesmo à distância. A internet também pode abrir espaço para cursos, grupos de interesse, entretenimento e novas formas de participação.

O risco começa quando essa conexão passa a ocupar o lugar de experiências que antes faziam parte da vida. Segundo Thaís, "o problema não está necessariamente na quantidade de tempo diante da tela, mas principalmente na função que esse uso passou a ocupar na vida da pessoa".

Para a psicóloga, alguns sinais indicam que a relação com o celular merece atenção: interferência no sono, abandono de atividades de lazer, menor disposição para sair de casa, prejuízos nos relacionamentos e necessidade constante de verificar mensagens, curtidas ou notificações. O alerta também vale quando as redes sociais se tornam praticamente a única fonte de companhia e entretenimento.

Por isso, o equilíbrio não depende apenas de reduzir o tempo no celular. Algumas atitudes podem ajudar a manter a tecnologia como complemento, e não substituta, da vida presencial:

1) Usar o digital para aproximar quem está longe: chamadas de vídeo e mensagens podem manter a pessoa idosa presente na rotina de familiares e amigos;

2) Preservar compromissos fora das telas: caminhadas, cursos, hobbies, jogos e grupos de convivência ajudam a manter movimento, interesses e vínculos;

3) Criar momentos de presença: refeições e encontros podem ser oportunidades para deixar o celular de lado e priorizar a interação com quem está por perto.

Redes sociais podem influenciar a forma de enxergar o envelhecimento

Além da quantidade e da função do uso, o tipo de conteúdo consumido também merece atenção. Nas redes sociais, é comum encontrar imagens de viagens, encontros familiares, corpos, rotinas de exercícios, conquistas e estilos de vida apresentados como referências de felicidade e realização.

Para uma pessoa idosa, essa exposição pode interferir na percepção sobre a própria trajetória. Isso ganha uma dimensão particular em uma sociedade que frequentemente associa juventude à beleza, produtividade e disposição.

"Quando alguém compara sua vida cotidiana com esse recorte editado da vida de outra pessoa, pode chegar à conclusão de que está vivendo menos, que sua aparência não é adequada ou que está envelhecendo de uma maneira ‘errada’", afirma Thaís.

Esse tipo de comparação pode atingir não apenas a aparência, mas também a percepção sobre saúde, relações familiares, produtividade e até a maneira como a pessoa entende o próprio envelhecimento. "A comparação constante pode alimentar sentimentos de inadequação, tristeza, ansiedade e insatisfação com a própria trajetória", alerta a psicóloga.

De acordo com Thaís, desenvolver um olhar crítico sobre o que aparece nas telas é importante, uma vez que as redes sociais mostram apenas uma parte da vida de quem publica e não devem ser utilizadas como medida para avaliar se uma pessoa está envelhecendo bem ou levando uma vida satisfatória.

"Envelhecer na era digital não significa ter de escolher entre estar conectado ou viver o presente. É preciso aprender a utilizar a tecnologia de uma maneira que ela esteja a serviço da vida, dos vínculos e do bem-estar, e não o contrário", acentua.

Como os familiares podem ajudar a manter esse equilíbrio

Familiares também podem contribuir para que a tecnologia seja uma ferramenta de conexão, e não a principal forma de convivência da pessoa idosa.