Cidades Rombo
Santa Casa acumula rombo de R$ 792 milhões enquanto Justiça barra repasse de R$ 126 milhões
Hospital que cobra aumento de repasse do Estado enfrenta crise financeira, investigação por suspeitas de fraude e intervenção judicial na administração
06/10/2026 14h00
Por: Tatiana Lemes
Foto: Divulgação

A crise financeira da Santa Casa de Campo Grande chegou a um ponto crítico: enquanto o hospital cobra do Governo de Mato Grosso do Sul R$ 126 milhões em valores retroativos e pede aumento do repasse mensal, uma auditoria apresentada pela Procuradoria-Geral do Estado aponta que o passivo da instituição alcançou R$ 792,6 milhões em 2025. Em nova decisão, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) manteve suspenso o pagamento imediato do valor reivindicado pela unidade.

A disputa coloca frente a frente duas versões sobre a origem do colapso financeiro. De um lado, a Santa Casa sustenta que os repasses públicos estão defasados e que o financiamento não acompanha os custos da assistência prestada pelo hospital. De outro, o Estado afirma, com base na auditoria apresentada à Justiça, que os recursos públicos aumentaram nos últimos anos e que o agravamento da dívida está relacionado principalmente à gestão e ao crescimento das despesas internas. A própria Santa Casa já declarou que considera insuficientes e desatualizados os valores repassados.

Pelos números apresentados pelo Estado, os recursos do SUS destinados à Santa Casa passaram de R$ 344,6 milhões em 2022 para R$ 438,7 milhões em 2025. Apesar do aumento, o passivo total saltou de R$ 555,7 milhões em 2023 para R$ 792,6 milhões em 2025, crescimento de 42%. O montante da dívida corresponde a cerca de 4,6 vezes o patrimônio da instituição, estimado em R$ 170,2 milhões.

Despesas administrativas sob pressão

A auditoria também joga luz sobre outro ponto sensível: os gastos considerados sem relação direta com o atendimento aos pacientes. Segundo os dados apresentados pelo governo no processo, despesas com escritório, diretoria e taxas cresceram 155%, chegando a R$ 198,1 milhões.

O valor representa aproximadamente 37% da arrecadação do hospital e se tornou um dos principais argumentos utilizados pelo Estado para contestar a liberação imediata dos R$ 126 milhões. A avaliação apresentada pela administração estadual é de que o problema não pode ser explicado apenas pela falta de repasses públicos.

A Santa Casa, por sua vez, sustenta que existe uma obrigação de atualização dos valores pagos pelo poder público. Em manifestação anterior, a instituição afirmou que o contrato permanece sem reajuste há anos e que a suspensão dos valores poderia comprometer a assistência aos pacientes do SUS.

R$ 126 milhões ficam travados

A disputa judicial envolve a tentativa da Santa Casa de elevar o convênio mensal de R$ 32,7 milhões para R$ 45,9 milhões, além da cobrança retroativa de R$ 126 milhões.

A decisão mais recente do TJMS impede, por enquanto, que o montante seja retirado dos cofres públicos de forma imediata. Com isso, o hospital terá de aguardar o andamento do processo para tentar obter os valores reivindicados.

O caso não é isolado. Em julho, o TJMS já havia suspendido uma ordem que determinava o pagamento imediato de cerca de R$ 23 milhões à Santa Casa, destacando o impacto potencial da medida sobre o erário. Na ocasião, a própria decisão registrou que a ação havia começado com uma cobrança de R$ 126 milhões e um pedido de aumento do repasse mensal.

Crise financeira se mistura a investigação

A situação ganhou uma dimensão ainda mais grave após a Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul em setembro. A investigação apura suspeitas de fraudes e desvios envolvendo contratos da Santa Casa e da operadora Santa Casa Saúde.

Segundo o MPMS, um contrato para digitalização de prontuários previa pagamentos de R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos. A investigação apontou que, somente no primeiro ano, teriam ocorrido desvios de aproximadamente R$ 1,4 milhão. O Ministério Público também identificou suspeitas em contratos firmados pela Santa Casa Saúde com empresas do mesmo grupo econômico.

Ainda segundo o MPMS, essas empresas receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões em 2025, enquanto o prejuízo à entidade foi estimado, até aquele momento, em pelo menos R$ 3,5 milhões. O órgão ressalta que o prejuízo total permanece em apuração.

A operação resultou em seis prisões preventivas e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia. As suspeitas investigadas, no entanto, ainda dependem da conclusão do processo e das decisões judiciais.

Justiça assume controle da crise

A crise chegou ao comando da instituição. Como desdobramento da Operação Antidotum, a Justiça determinou o afastamento da Diretoria Corporativa e dos integrantes do Conselho de Administração da Santa Casa e nomeou o médico Luiz Alberto Hiroki Kanamura como gestor provisório.

O prazo inicial da gestão é de 180 dias, com possibilidade de prorrogação. Entre as atribuições estão reorganizar contratos, negociar com fornecedores e credores, promover ajustes administrativos e financeiros e garantir a continuidade dos serviços. A nova administração também deverá prestar contas mensalmente ao Judiciário.

O próprio MPMS afirma que a intervenção judicial tem como objetivo preservar a continuidade dos serviços e proteger os pacientes atendidos pelo SUS.

No centro da crise está agora uma conta que ultrapassa R$ 792 milhões em passivos, uma investigação sobre contratos, uma administração submetida à gestão provisória e uma disputa judicial por mais R$ 126 milhões em recursos públicos. Enquanto a Justiça não define o destino do dinheiro pleiteado, a Santa Casa precisa reorganizar as próprias contas e manter funcionando um dos principais hospitais de referência para pacientes do SUS em Mato Grosso do Sul.