A crise na Santa Casa de Campo Grande, marcada por queixas de sobrecarga de trabalho na enfermagem e cinco meses de salários atrasados para médicos contratados como pessoa jurídica (PJ), entrou em uma nova rodada de negociações. A direção provisória afirma ter encaminhado medidas para aliviar a rotina dos profissionais e promete auditar a dívida de R$ 32 milhões acumulada com o corpo clínico.
À frente da gestão provisória do hospital, Luiz Alberto Kanamura afirmou que as conversas com os sindicatos de médicos e trabalhadores da enfermagem têm avançado em busca de soluções. “Estamos todos no mesmo barco”, declarou, ao comentar a disposição das entidades para negociar.
Na enfermagem, uma das principais reclamações surgiu após o encerramento do contrato da Santa Casa com um laboratório terceirizado. Com a mudança, enfermeiros e técnicos passaram a assumir tarefas como coleta de material e exames laboratoriais, aumentando as responsabilidades da equipe.
Kanamura afirmou que negociou a contratação de um laboratório e que uma equipe específica para as coletas está sendo implantada, sem participação dos profissionais da enfermagem. Segundo ele, a medida resolve uma das principais queixas apresentadas pelo sindicato.
As reclamações sobre as condições de trabalho foram levadas pelo Sindicato dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (Siems) ao Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso do Sul (MPT-MS), em reunião realizada em 5 de outubro.
Além das coletas laboratoriais, o sindicato denunciou que profissionais da enfermagem estavam sendo responsáveis pelo transporte de pacientes, atividade atribuída aos maqueiros. Segundo a entidade, houve casos de trabalhadores suspensos após se recusarem a executar essa função.
A Santa Casa definiu a contratação de 13 coletores, mas ainda não há prazo informado para novas admissões destinadas a reforçar as equipes. Até que o quadro seja ampliado, setores como a unidade do trauma continuam sujeitos à falta de profissionais para determinadas tarefas, o que pode levar trabalhadores a deixar seus postos para atender outras demandas.
O transporte de pacientes também permanece como um desafio, principalmente nas unidades de terapia intensiva (UTIs). Enquanto há maqueiros no pronto-socorro, nas alas de cirurgia, clínica médica e hemodiálise, pacientes críticos internados nas UTIs continuam sendo transportados por equipes formadas por médico, enfermeiro e fisioterapeuta.
De acordo com Kanamura, a gestão mantém em andamento um plano para enfrentar essa deficiência.
Se na enfermagem o foco está na redistribuição das tarefas, entre os médicos a principal cobrança é financeira. A Santa Casa acumula uma dívida de R$ 32 milhões em pagamentos atrasados a aproximadamente 300 profissionais contratados como PJ.
Kanamura classificou o débito como passivo e afirmou que uma auditoria foi contratada para apurar os valores e avaliar as possibilidades de pagamento. A previsão, segundo ele, era de que o trabalho começasse na semana seguinte à declaração.
A gestão pretende analisar se a dívida poderá ser quitada dentro da capacidade financeira do hospital ou se será necessária uma negociação com o Governo de Mato Grosso do Sul e a Prefeitura de Campo Grande para obter novos aportes de recursos.
“Vamos fazer essa auditoria para ver se pagamos dentro das possibilidades da Santa Casa ou com uma negociação com o Estado e o Município, porque isso vai precisar de aporte de dinheiro”, afirmou o gestor.
O atraso de cinco meses nos pagamentos elevou a tensão entre os profissionais. Segundo Marcelo Santana Silveira, presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (Sinmed-MS), parte da categoria, formada majoritariamente por anestesiologistas, chegou a considerar a possibilidade de paralisar as atividades e até deixar o hospital.
A perspectiva de uma nova negociação, porém, fez com que os médicos recuassem dessas possibilidades e permanecessem trabalhando, na expectativa de receber os valores devidos.
A auditoria e as tratativas com os governos estadual e municipal serão decisivas para definir os próximos passos. Enquanto isso, a Santa Casa precisa conciliar a regularização dos pagamentos com a manutenção da assistência e a resolução das falhas de pessoal apontadas pelos trabalhadores.