Cidades Crise na saúde
Justiça obriga anestesistas a permanecer na Santa Casa por 45 dias em meio à crise
Decisão busca evitar a paralisação de cirurgias e exames enquanto a nova gestão tenta negociar com prestadores, conter a saída de especialistas e reduzir em 20% a folha de pagamento do hospital
14/10/2026 14h50
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

O impasse financeiro está no centro da disputa. A Santa Casa acumula cerca de R$ 2,3 milhões em débitos com a Servan, referentes a quatro meses de serviços. A proposta apresentada pelo hospital previa quitar os valores em duas etapas, mas não foi aceita pela empresa.

Os pagamentos mensais variam conforme o volume de procedimentos realizados. Em junho, o valor devido foi de aproximadamente R$ 278,3 mil; em agosto, chegou a R$ 786,7 mil, quase três vezes mais.

A Sedar, por sua vez, argumentou que não dispõe de capacidade operacional para assumir sozinha os atendimentos caso a Servan deixe o hospital. A empresa alertou para os riscos de sobrecarga das equipes, atrasos e comprometimento da segurança dos pacientes.

Ao justificar a decisão, o juiz destacou que a substituição imediata dos profissionais exige a contratação de médicos em número suficiente, reorganização das escalas e integração das novas equipes à estrutura hospitalar. Por isso, determinou a manutenção dos serviços por 45 dias corridos, contados a partir da intimação das empresas, sob pena de multa diária de R$ 30 mil em caso de descumprimento, inicialmente limitada a 15 dias de multa. 

A decisão também estabelece um quantitativo mínimo de 14 anestesistas durante o dia e oito à noite e nos fins de semana, para garantir a cobertura assistencial.

Cirurgiões pediátricos também podem deixar o hospital

A preocupação da nova gestão não se limita à anestesiologia. No início de setembro, cirurgiões cardíacos pediátricos contratados como pessoas jurídicas comunicaram a intenção de deixar a instituição. A negociação para tentar mantê-los também continua.

O cenário é agravado pelos atrasos nos pagamentos dos profissionais e pela falta de insumos necessários aos procedimentos. A crise já afetou serviços especializados do hospital, incluindo o atendimento de cardiologia pediátrica, essencial para pacientes que necessitam de cirurgias cardíacas.

A permanência temporária dos anestesistas, portanto, não resolve a situação financeira nem garante a continuidade definitiva das equipes. O prazo judicial representa uma janela para que a administração encontre alternativas e evite novas interrupções.

Nova gestão terá de cortar despesas e priorizar casos graves

Paralelamente às negociações com os médicos, Kanamura recebeu a missão de reorganizar as contas da Santa Casa. Uma das metas estabelecidas é reduzir em 20% a folha de pagamento, atualmente estimada em R$ 16 milhões mensais.

O corte previsto deverá atingir os funcionários contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), sem incluir os profissionais contratados como pessoas jurídicas.

Outra mudança discutida com o Ministério Público, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) e a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) prevê uma transição gradual para que o hospital concentre o atendimento em pacientes de alta complexidade, como pessoas com doenças cardíacas, neurológicas e vítimas de queimaduras.

A proposta busca reduzir a pressão sobre a estrutura hospitalar, direcionando os recursos para os casos que exigem atendimento especializado. A mudança, no entanto, depende da organização da rede pública para absorver os pacientes que não se enquadrem nesse perfil.

A Justiça também fixou a remuneração mensal do gestor provisório em R$ 46.366,19, o equivalente a R$ 278.197,14 ao longo dos seis meses inicialmente previstos para sua atuação.

Com dívidas acumuladas, risco de perda de especialistas e necessidade de reduzir despesas, a nova administração enfrenta o desafio de manter os serviços essenciais enquanto tenta reestruturar o hospital. Os 45 dias determinados pela Justiça serão decisivos para as negociações com as empresas de anestesiologia, mas a solução definitiva dependerá também da regularização dos pagamentos e da recuperação da capacidade financeira da instituição.