Polícia Comando Vermelho
Comando Vermelho recruta mulheres e adolescentes para planejar crimes em MS, alerta Polícia Civil
Investigação aponta uso de jovens para organizar homicídios, levantar informações e articular ações da facção; adolescente de 17 anos morta em confronto em Nova Andradina teria exercido papel de liderança e participado do planejamento da morte do próprio pai
16/10/2026 14h15
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

A atuação do Comando Vermelho em Mato Grosso do Sul acende um alerta sobre uma estratégia que amplia o alcance da facção nos municípios: o recrutamento de mulheres e adolescentes para funções consideradas estratégicas na organização de crimes violentos. Em vez de apenas executar ordens, jovens cooptadas pelo grupo podem assumir tarefas de planejamento, levantamento de informações e articulação de homicídios, segundo investigadores da Polícia Civil.

O caso de Ana Vitória Nascimento Santos, de 17 anos, morta durante confronto com policiais na quinta-feira (15), em Nova Andradina, a 298 quilômetros de Campo Grande, expõe a dimensão dessa atuação. De acordo com a investigação, a adolescente teria participação ativa nas decisões do grupo criminoso e na organização de ações violentas na região.

O alerta foi reforçado nesta sexta-feira (16), durante coletiva de imprensa, quando autoridades policiais detalharam o funcionamento da estrutura investigada e a forma como integrantes da facção estariam conquistando apoio local para executar crimes.

Mulheres e adolescentes no planejamento dos homicídios

Segundo o delegado do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros), Roberto Guimarães, Ana Vitória não ocupava uma posição meramente auxiliar. Conforme o investigador, ela teria poder de decisão dentro do grupo.

A polícia descreve um modelo de atuação no qual integrantes enviados a municípios para cumprir missões criminosas buscam apoio de pessoas da própria região. Esses chamados mensageiros ou executores seriam responsáveis por objetivos específicos, entre eles ataques contra integrantes de facções rivais, enquanto mulheres e adolescentes locais poderiam ajudar a organizar a logística das ações.

O diretor do Departamento de Polícia Especializada (DPE), delegado Ivan Barreira, afirmou que suspeitos vindos de outros estados estariam recorrendo à persuasão, ao dinheiro e à influência nas comunidades para cooptar moradores.

Uma das estratégias investigadas é utilizar mulheres para observar locais e levantar informações, sob a avaliação de que elas poderiam despertar menos suspeitas. Para a polícia, esse recrutamento amplia a capacidade de atuação dos grupos criminosos e dificulta a identificação de todos os envolvidos na preparação dos ataques.

O cenário preocupa porque a cooptação pode transformar adolescentes em peças importantes de estruturas violentas, aproximando-os de atividades criminosas que envolvem planejamento de execuções e disputas entre facções.

Operação Descarrilho termina com três mortos

Ana Vitória morreu durante a Operação Descarrilho, deflagrada em Nova Andradina para cumprir mandados de busca e apreensão e avançar nas investigações sobre o núcleo do Comando Vermelho que atuaria no município e na região.

Também morreram no confronto Wemerson Costa dos Anjos, de 28 anos, conhecido como Tio Baby, e João Lucas Nunes, de 23 anos, chamado de Juquinha.

Conforme a Polícia Civil, os suspeitos investigados teriam vindo de Mato Grosso para cometer crimes em Mato Grosso do Sul. O trabalho policial buscava identificar integrantes e a estrutura de apoio da facção na região.

Segundo o delegado Ivan Barreira, a investigação também alcançou suspeitos relacionados a um homicídio em Casa Verde, distrito de Nova Andradina, no qual quatro pessoas da mesma família foram executadas. De acordo com o relato apresentado pela polícia, os envolvidos nesse caso seriam oriundos de diferentes estados.

A operação foi realizada de forma integrada pelas forças de segurança, como parte das ações para combater a presença e a articulação da organização criminosa no interior do Estado.

Adolescente é investigada por planejar a morte do próprio pai

Um dos episódios mais graves atribuídos à atuação de Ana Vitória é o assassinato do próprio pai, ocorrido em 29 de setembro, em Batayporã, a 306 quilômetros de Campo Grande.

Segundo o delegado Roberto Guimarães, a adolescente teria participado da preparação do crime junto a integrantes do Comando Vermelho. A investigação aponta que ela teria organizado o local e criado uma situação para atrair o pai, que era investigado por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), até o ponto em que foi executado.

A polícia também investiga a possível ligação da jovem com o assassinato de Natalício Rodrigues dos Santos, conhecido como Pebinha, ocorrido em 5 de outubro.

Ainda conforme os investigadores, uma das armas apreendidas com o trio morto na Operação Descarrilho apresenta compatibilidade com a arma utilizada no homicídio do pai da adolescente. Essa correspondência é um elemento da apuração, não uma conclusão isolada sobre a autoria dos crimes.

Alerta vai além de Nova Andradina

As informações divulgadas pela Polícia Civil apontam para uma dinâmica que não se limita à presença de criminosos vindos de outros estados. A estratégia investigada depende também da conquista de colaboradores nos municípios, inclusive jovens que podem ser atraídos por dinheiro, influência ou pressão de integrantes da facção.

O recrutamento de mulheres e adolescentes para tarefas de apoio e planejamento representa um desafio adicional para as forças de segurança, porque desloca parte da articulação criminosa para dentro das comunidades onde os ataques são preparados.

A investigação em Nova Andradina evidencia a necessidade de identificar não apenas quem executa os homicídios, mas também quem fornece informações, organiza deslocamentos e viabiliza as ações. O enfrentamento desse modelo exige trabalho de inteligência, integração policial e atenção aos mecanismos de aliciamento de adolescentes.

O alerta das autoridades é claro: a participação de jovens em funções estratégicas pode ampliar o poder de atuação das facções e aprofundar a violência no interior de Mato Grosso do Sul