A chegada de um novo inquérito contra Flávio Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal, às vésperas do segundo turno, não é um fato político comum: é um teste de resistência institucional. A investigação, que apura suposta lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo do candidato, foi distribuída por sorteio ao ministro Alexandre de Moraes — o mesmo magistrado que já responde por outros casos sensíveis ligados ao bolsonarismo.g1.globo+1
Não se trata de afirmar que Flávio Bolsonaro é culpado. Presunção de inocência não é detalhe retórico: é a base do Estado de Direito. Mas também não se pode aceitar, sem questionamento, que uma apuração sigilosa avance com velocidade incomum em plena campanha eleitoral, sob relatoria de um ministro que virou personagem central do conflito político brasileiro. Segundo informações da campanha, o inquérito chegou ao STF em 8 de outubro, foi autuado e distribuído a Moraes em 16 de outubro, com supostas diligências já em curso antes mesmo da abertura de vista ao Ministério Público.cnnbrasil.com+1
A PGR teria emitido parecer favorável à abertura do inquérito e ao avanço da apuração. O problema não é que a Polícia Federal investigue; investigações contra políticos devem existir, sempre. O problema é o timing, o sigilo e a possibilidade de uma decisão judicial ser usada como arma eleitoral — em qualquer direção.cnnbrasil.com
A PF apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas a Willer Tomaz e a plataformas de apostas. O nome de Flávio teria surgido em mensagens trocadas com o advogado, o que levou o caso ao STF por conta do foro privilegiado do senador. Há ainda indícios de movimentação financeira relevante: a própria PF aponta movimentação de R$ 130 milhões em três meses por Tomaz, segundo reportagem da CNN.valor.globo+2
Isso exige apuração séria. Mas exige também que a apuração não se transforme em espetáculo seletivo. Se há provas, que sejam apresentadas aos autos e enfrentadas pela defesa. Se não há, que o caso não seja mantido suspenso sobre a cabeça de um candidato como uma espada política.
Flávio Bolsonaro deve pedir acesso à investigação, e deve fazê-lo com força. A campanha já sinaliza essa movimentação. Aliados do candidato sustentam que a relação com Willer Tomaz é de amizade e que a troca de mensagens entre ambos não configura irregularidade. Willer Tomaz, em nota, negou irregularidades, disse ter requerido acesso aos autos e afirmou que prestará esclarecimentos.cnnbrasil.com+1
Essa é a resposta correta: não negar a existência do inquérito, não atacar a imprensa, não transformar suspeita em martyrdom — mas exigir autos, prazos, fundamentação e isonomia. Um cidadão investigado tem direito de saber o que lhe é imputado. Um candidato à Presidência, mais ainda.
O risco maior não está apenas no conteúdo do inquérito, mas na percepção pública de que o Supremo atua de forma assimétrica em momentos decisivos. Quando o relator é Alexandre de Moraes, qualquer movimento ganha densidade política imediata. Não por conspiração, mas porque o ministro já é visto por parte expressiva da sociedade como um ator politicamente engajado — e a própria campanha de Flávio avalia que sua atuação ostensiva pró-Lula no primeiro turno pode ter ajudado o adversário do candidato.cnnbrasil.com
Se houver decisão prejudicial a Flávio nos dias finais da campanha, sem transparência e sem possibilidade real de defesa, o efeito não será apenas jurídico: será eleitoral e institucional. O STF precisa entender que, em democracia, não basta agir dentro da legalidade formal. É preciso agir de modo a não alimentar a suspeita legítima de instrumentalização da Justiça.
A solução é simples e urgente: acesso da defesa aos autos, publicidade dos atos que puderem ser divulgados sem comprometer a investigação, respeito rigoroso ao contraditório e nenhuma decisão de impacto eleitoral sem fundamentação robusta. O inquérito é sigiloso, e por isso não é possível confirmar independentemente como tramita ou se houve diligências. Justamente por isso, a cautela do STF deve ser máxima.cnnbrasil.com
O Brasil não pode conviver com a impressão de que investigação criminal é instrumento de calendário eleitoral. Nem de um lado, nem do outro. Se Flávio Bolsonaro cometeu irregularidades, que responda conforme a lei. Se não cometeu, que o Estado tenha a decência de não transformar sua candidatura em refém de um processo opaco.
A perseguição, nesse contexto, não se prova apenas com uma ordem judicial ou uma operação da PF. Ela se configura quando o poder investigativo deixa de ser impessoal e passa a operar com timing, intensidade e visibilidade diferentes conforme o alvo. É exatamente essa suspeita que o STF precisa dissipar — com atos, não com silêncio.