A situação das ruas de Campo Grande deixou de ser apenas alvo de reclamações dos moradores e passou a pressionar diretamente a Prefeitura dentro da Câmara Municipal. Com os 29 vereadores unidos em torno da abertura da CPI do Tapa-Buracos, o Legislativo se prepara para aprofundar a fiscalização sobre um dos serviços públicos que mais afetam a rotina da população: a manutenção da malha viária.
O requerimento está sob análise da Procuradoria Jurídica da Câmara, que deve emitir parecer até sexta-feira (30). A avaliação vai determinar se a proposta cumpre os requisitos legais e regimentais para avançar. O presidente da Casa, Papy (PSDB), afirmou não enxergar obstáculos jurídicos à investigação.
O próximo passo será definir os cinco integrantes da comissão, responsáveis por conduzir as apurações. E, embora todos os parlamentares tenham assinado o pedido, a unanimidade pode não se repetir na disputa pelas vagas. Segundo Papy, vários vereadores querem participar, e a definição exigirá critérios para evitar acusações de favorecimento político.
O tamanho da insatisfação com o serviço aparece no próprio volume de cobranças feitas pelos parlamentares. Somente no primeiro semestre de 2026, foram apresentadas mais de 9 mil indicações relacionadas a reparos em buracos nas ruas da Capital.
A pressão levou à convocação do secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, André de Moura Brandão, para prestar esclarecimentos em plenário. Durante a sabatina, os vereadores questionaram a falta de prazos objetivos para solucionar o problema, a transparência no planejamento das equipes, a qualidade dos reparos e a disponibilidade de recursos.
Cobrado sobre quando a situação seria resolvida, o secretário não apresentou uma data definitiva e afirmou que o atendimento ocorreria “o mais breve possível”. A resposta reforçou a cobrança por um cronograma capaz de mostrar à população quais vias serão atendidas e quando os serviços devem ser executados.
Ao explicar as dificuldades enfrentadas pela Secretaria, Brandão afirmou que assumiu a Sisep, em junho, com apenas três contratos vigentes. Segundo ele, a suspensão de um contrato após recomendação relacionada à Operação Buraco Sem Fim, do Ministério Público Estadual, provocou a interrupção de quatro frentes de trabalho e uma redução de 80% nos serviços.
A Secretaria informou que atualmente mantém 12 frentes de trabalho, de segunda-feira a sábado. Também apresentou dados segundo os quais o número de reparos caiu 30,4% em 2025, na comparação com 2024. Entre julho e setembro de 2026, porém, a área recomposta teria crescido 56,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Outro fator apontado foi a idade do pavimento: conforme os números apresentados pelo secretário, aproximadamente 53% do asfalto de Campo Grande tem mais de 30 anos. A condição, somada às chuvas acima da média, aumenta a necessidade de intervenções mais amplas e dificulta a durabilidade dos consertos.
Para a CPI, a questão central será esclarecer como os serviços vêm sendo contratados, executados e fiscalizados, além de verificar se os resultados correspondem aos recursos aplicados e às necessidades da cidade.
A Câmara também entregou à Sisep um Plano Emergencial de Recuperação Viária, com prazos para apresentação de medidas, divulgação de dados e acompanhamento público dos serviços.
A proposta estabelece prazo de 72 horas para a apresentação de um plano emergencial com equipes, responsáveis e prioridades. Em sete dias, prevê a publicação de um mapa dos pontos críticos e do cronograma de atendimento. Em 15 dias, estabelece a divulgação de um balanço com localização dos reparos, quantidades, fotografias e custos. Em 30 dias, prevê uma avaliação das metas e um planejamento para os meses seguintes.
O documento ainda propõe prestação de contas semanal, um protocolo de resposta às chuvas intensas e um observatório público para monitorar a qualidade do asfalto.
As medidas, no entanto, não substituem a investigação parlamentar. O plano busca estabelecer compromissos para a execução do serviço; a CPI, se instalada, poderá aprofundar a análise dos documentos, contratos e procedimentos administrativos relacionados à operação tapa-buracos.
Durante os trabalhos, a comissão poderá convocar autoridades, ouvir testemunhas, realizar vistorias e requisitar documentos, como contratos, notas fiscais e processos de licitação, dentro dos limites legais. Ao final, deverá apresentar um relatório com as conclusões e eventuais recomendações.
Se forem identificados indícios de irregularidades, o material poderá ser encaminhado ao Ministério Público Estadual e ao Tribunal de Contas para análise e adoção das medidas cabíveis. A CPI, por si só, não condena os investigados nem aplica penas criminais.
A proposta de autoria da vereadora Luiza Ribeiro chega à fase decisiva com apoio formal de toda a Câmara. Agora, a expectativa se concentra no parecer jurídico e na escolha dos integrantes que terão a responsabilidade de conduzir as apurações.
Para os moradores, o resultado mais importante será saber se a investigação conseguirá esclarecer responsabilidades, dar transparência ao uso do dinheiro público e contribuir para que os reparos deixem de ser uma resposta temporária e passem a oferecer condições mais seguras de circulação pela Capital.