Política CPI dos Buracos
CPI dos Buracos vira disputa política na Câmara e expõe escolhas controversas de Papy
Vinte dias após ser criada, comissão que investigará contratos de tapa-buracos só agora tem composição encaminhada; indicação de vereador sem direito à vaga pela proporcionalidade e movimentação partidária levantam questionamentos sobre os critérios adotados pela presidência
06/11/2026 14h20
Por: Tatiana Lemes
Foto: Reprodução

Depois de passar quase três semanas sem sair do papel, a CPI dos Buracos finalmente teve seus integrantes definidos nesta sexta-feira (6), na Câmara Municipal de Campo Grande. Mas a demora para instalar a comissão acabou dando lugar a outro problema: a controvérsia em torno das articulações políticas que determinaram quem terá a responsabilidade de fiscalizar os serviços de manutenção das ruas da Capital.

A definição ocorreu em meio a uma intensa disputa por apenas cinco cadeiras. O presidente da Câmara, Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), teve papel central nas negociações, conduzindo as conversas para acomodar os interesses das bancadas. O processo levantou questionamentos sobre os critérios utilizados para distribuir as vagas, especialmente diante da possibilidade de partidos com direito à representação abrirem espaço para legendas menores.

A composição confirmada ficou com Luiza Ribeiro (PT), na presidência; Dr. Victor Rocha (PSDB), na relatoria; Dr. Lívio (União Brasil), Leinha (Avante) e Beto Avelar (PP). O PL acabou ficando de fora depois de abrir mão da cadeira.

Indicação de Leinha concentra controvérsia

Um dos pontos mais controversos das negociações foi a entrada de Leinha (Avante). Com apenas dois vereadores, o partido não figurava entre as bancadas que teriam direito direto a uma vaga pelo critério de proporcionalidade.

Para viabilizar sua participação, outras legendas abriram mão de indicar representantes. A movimentação colocou em evidência a influência das articulações conduzidas por Papy e provocou questionamentos sobre a distribuição dos espaços em uma comissão que terá justamente a missão de fiscalizar atos da administração municipal.

O nome de Leinha também carrega um histórico de desgaste político. Em setembro, durante uma reunião política, o vereador fez declarações contra a prefeita Adriane Lopes, afirmando que ela não terminaria o mandato e utilizando a expressão “metendo a mão no dinheiro do povo”.

No PP, a disputa também revelou divergências internas. Maicon Nogueira e Beto Avelar estavam entre os interessados na cadeira. A escolha acabou favorecendo Beto, líder da prefeita na Câmara, que chegou a cogitar deixar temporariamente a liderança para integrar a investigação.

Já no União Brasil, Dr. Lívio precisou reagir às informações de que a legenda abriria mão da vaga. O vereador procurou a imprensa para negar a desistência e afirmou que estava brigando para participar da comissão. No desfecho, garantiu uma das cinco cadeiras.

Investigação terá 120 dias para apurar problemas

A CPI foi criada para investigar possíveis irregularidades em contratos de tapa-buracos, a redução expressiva dos investimentos destinados à manutenção das vias públicas em 2026 e o descumprimento dos prazos de resposta a requerimentos de informação aprovados pelo plenário.

A comissão terá prazo inicial de 120 dias para conduzir os trabalhos e buscar esclarecimentos sobre a aplicação dos recursos públicos e a qualidade dos serviços executados nas ruas da Capital.

A expectativa é que a investigação consiga esclarecer por que os problemas na malha viária continuam sendo motivo de reclamação da população e se houve falhas administrativas, contratuais ou financeiras na execução dos serviços.

Depois de uma longa negociação para definir quem ocuparia as cadeiras, os vereadores agora terão de demonstrar que a CPI não será apenas mais um instrumento de disputa política. Com a fiscalização dos recursos públicos em jogo, a população espera investigação efetiva, transparência e respostas concretas sobre a situação das ruas de Campo Grande.