
1. O Fato e a Lenta Linha do Tempo
O noticiário político foi sacudido nesta semana com a notícia do indiciamento do ex-
ministro da Igualdade Racial, Silvio Almeida, pela Polícia Federal. A acusação é grave:
importunação sexual, um crime que, independentemente da notoriedade do acusado,
exige uma resposta célere e transparente do sistema de Justiça.
O caso em questão não é recente. As denúncias contra Almeida, envolvendo o uso de
suas redes sociais para interações inadequadas, vieram à tona há meses, gerando
desconforto e forte repercussão nas esferas política e social.
No entanto, a morosidade entre a explosão pública do caso e a formalização do
indiciamento pela PF levanta a primeira e mais crucial dúvida: por que a Justiça
demorou tanto para mover as peças? A lentidão sugere que, se o caso não tivesse
ganhado tamanha visibilidade, talvez ficasse relegado às gavetas da burocracia, um
destino comum a milhares de denúncias no Brasil.
2. O Timing Político: A Suspeita da Seletividade
A formalização do indiciamento de uma figura proeminente ligada a um governo no
poder raramente é vista como um ato meramente técnico. No ambiente político de
Brasília, o timing da ação da Polícia Federal é sempre observado com lupa.
O indiciamento de Silvio Almeida ocorre em um momento de alta tensão política e
desgaste em várias frentes do governo. Isso alimenta a suspeita de que a Justiça
brasileira opera com seletividade, acelerando ou freando processos com base na
conveniência política do momento, ou na pressão midiática.
O questionamento é claro: A demora inicial protegia o ex-ministro, um intelectual de
destaque na gestão atual? E o indiciamento agora serviria a que propósito? Seria uma
tentativa de demonstrar imparcialidade do sistema, ou a pressão popular e o desgaste do
caso se tornaram insustentáveis para a manutenção do silêncio?
A transparência, que deveria ser a bússola das investigações, é substituída pela
desconfiança. Para o cidadão comum, a Justiça parece mais ágil e incisiva contra
adversários políticos do que contra aliados ou figuras de prestígio no poder.
3. O Fim da Blindagem e o Futuro do Caso
A decisão da PF de indiciar Silvio Almeida, apesar de tardia, é um passo fundamental
que rompe a barreira da blindagem política que muitas vezes protege figuras públicas.
Com o indiciamento, o caso segue para o Ministério Público, que decidirá se oferece
denúncia à Justiça. Se a denúncia for aceita, Almeida se tornará réu e terá que responder
formalmente por importunação sexual.
Ainda que o caso não encerre com esta etapa, ele envia uma mensagem importante: a
pressão pública e a gravidade das acusações podem, em algum momento, superar a
inércia do sistema.
Contudo, até que a Justiça demonstre celeridade e imparcialidade de forma consistente –
independentemente de quem esteja no banco dos réus – o debate sobre a seletividade
judicial continuará a ser o principal tema na conversa pública sobre este e outros casos
que envolvem o establishment político brasileiro.