Quarta, 24 de Junho de 2026

Intervenção escancara rombo no Consórcio Guaicurus e coloca concessão do transporte coletivo na berlinda

Prefeitura encontra cenário financeiro caótico, investiga negócio suspeito envolvendo patrimônio da empresa e admite que futuro do contrato pode estar com os dias contados

24/06/2026 às 15h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Reprodução
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A intervenção decretada pela prefeita Adriane Lopes (PP) no Consórcio Guaicurus começa a revelar um cenário ainda mais grave do que o imaginado. Apenas uma semana após assumir o controle administrativo da concessionária responsável pelo transporte coletivo de Campo Grande, a equipe interventora encontrou indícios de um verdadeiro colapso financeiro, apesar dos milhões de reais repassados ao sistema nos últimos anos.

O interventor-chefe, Aléxandro de Oliveira, afirmou que o primeiro acesso às contas da empresa confirmou uma situação preocupante e levantou questionamentos sobre a forma como os recursos eram administrados pelos antigos gestores, afastados por 180 dias. A principal dúvida agora é entender como uma empresa que recebeu cerca de R$ 70 milhões em repasses públicos chegou a uma condição considerada próxima da insolvência.

A gravidade da situação ficou evidente logo nos primeiros dias da intervenção. Segundo a equipe nomeada pela Prefeitura, garantir o pagamento da folha salarial dos funcionários foi tratado como uma missão emergencial para evitar a paralisação do serviço. O simples fato de manter os ônibus circulando já é considerado um desafio diante do quadro encontrado.

Além das dificuldades financeiras, os interventores também investigam por que o transporte coletivo chegou a um nível de precariedade que se tornou alvo constante de reclamações da população. Ônibus velhos, atrasos, falhas operacionais e a queda na qualidade do serviço fazem parte da lista de problemas que agora serão analisados em profundidade.

Mas o que mais chama atenção é a existência de operações patrimoniais que levantam suspeitas de possíveis prejuízos ao interesse público. Entre elas está a venda da principal garagem utilizada pelo Consórcio Guaicurus em 2021 para uma empresa pertencente aos mesmos sócios que controlam a concessionária.

A negociação virou alvo de ação judicial sob a acusação de que teria ocorrido por um valor muito abaixo do registrado na contabilidade da empresa. O autor da ação sustenta que a operação pode ter sido uma simulação de venda entre empresas do mesmo grupo econômico e que o imóvel deveria ser considerado um bem reversível, ou seja, patrimônio destinado a retornar ao município ao término da concessão.

O caso ganhou contornos ainda mais graves após o pedido de envio das informações ao Ministério Público para eventual investigação criminal. A equipe de intervenção confirmou que o negócio está na lista de prioridades e será analisado para verificar se houve irregularidades, prejuízo ao contrato ou danos ao patrimônio público.

Enquanto isso, a Prefeitura já trabalha com um cenário que até pouco tempo parecia distante: o fim da concessão do Consórcio Guaicurus. Caso o relatório final confirme incapacidade financeira ou descumprimentos contratuais graves, Adriane Lopes poderá decretar a caducidade da concessão, encerrando o contrato por culpa da empresa.

Nos bastidores do Executivo, o debate já avança para um novo modelo de transporte coletivo. Estudos preliminares apontam para uma futura licitação com exigências mais rígidas, incluindo ônibus equipados com ar-condicionado, renovação da frota e utilização de veículos movidos a gás natural e biogás.

Após anos de reclamações dos usuários e sucessivas crises no transporte coletivo, a intervenção pode representar um divisor de águas para um dos contratos mais polêmicos da história recente de Campo Grande. O relatório final deverá mostrar se os problemas são fruto apenas de má gestão ou se o município esteve diante de uma estrutura financeira que, mesmo abastecida por recursos públicos, caminhava para o colapso.

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