
Mato Grosso do Sul não aparece entre os piores índices de violência contra mulheres por acaso, nem por oscilação eventual de um ano isolado. O estado vem se mantendo, de forma recorrente, entre as posições mais preocupantes do país em feminicídio, estupro e outras formas de violência de gênero, o que sugere um problema estrutural, não episódico. Em 2025, por exemplo, o estado figurou com a 4ª maior taxa de estupro de mulheres do Brasil, enquanto levantamentos recentes apontam MS entre os cinco estados com maiores taxas de feminicídio em toda a série histórica analisada.
No recorte dos últimos cinco anos, a situação é ainda mais incômoda: MS aparece de forma sucessiva nas partes de cima do ranking nacional, com destaques para 2021, quando esteve entre os líderes em feminicídio, e 2025, quando voltou a registrar indicadores muito altos de estupro e assassinatos de mulheres. Em outras palavras, o estado não só figura no topo em vários momentos, como permanece nele com pouca capacidade de reversão sustentada.
A série histórica recente
Ano | Posição de MS | Observação
| 2021 | 2º lugar em feminicídio | O estado tinha a segunda maior taxa do país.
| 2022 | Entre os primeiros do país | O aumento dos casos manteve MS no grupo crítico.
| 2023 | Entre os cinco piores | A série histórica indica permanência no topo.
| 2024 | 4º lugar em estupro de mulheres/vulneráveis | Dourados também apareceu entre os municípios com maior taxa.
| 2025 | 4º lugar em estupro de mulheres | Taxa de 142,6 casos por 100 mil mulheres.
O mais importante aqui não é apenas o ranking, mas a repetição do padrão. Quando um estado figura continuamente nas primeiras posições, isso indica falhas de prevenção, rede de proteção, investigação, acolhimento e interrupção do ciclo de violência.
A resposta pública
Houve ação pública, mas ela não parece ter sido suficiente para mudar o quadro de fundo. Em nível estadual, existem instrumentos de monitoramento, como o da Sejusp e painéis do Observatório da Cidadania da UFMS, que ajudam a dar visibilidade aos dados. Em nível nacional, o Atlas da Violência 2026 menciona iniciativas como a reestruturação do sistema de segurança pública e programas voltados ao enfrentamento do crime organizado e à política penal.
O problema é que monitorar não é o mesmo que reduzir. A presença de plataformas, relatórios e campanhas mostra que houve algum esforço institucional, mas os números seguem altos, o que sugere resposta mais reativa do que transformadora. A violência continua avançando mais rápido do que a capacidade do poder público de preveni-la.
Leitura crítica
O caso de MS expõe um limite claro das políticas públicas: há visibilidade do problema, mas ainda não há impacto proporcional na redução dos indicadores. O estado parece preso a uma combinação ruim de subnotificação, vulnerabilidade social, repetição territorial dos casos e baixa eficácia das medidas preventivas.
A crítica central, portanto, não é à ausência total de ação, mas à insuficiência dela. O poder público até reage, mas reage tarde, de forma fragmentada e sem conseguir quebrar a continuidade da violência. Enquanto isso, MS segue aparecendo como um dos territórios mais hostis do país para mulheres.