
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul começou a desenhar, nesta segunda-feira (17), o tom da corrida eleitoral de 2026: muito confronto político, críticas ao atual governo e poucas propostas concretas para o Estado. O encontro, promovido pela Morena FM e pelo Primeira Página, reuniu sete dos oito candidatos convidados. O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, decidiu não participar.
O debate estava previsto para começar às 7h30 e teve três blocos, com perguntas entre os próprios candidatos, incluindo temas previamente definidos e questões livres.
A ausência de Riedel acabou se tornando um dos assuntos mais explorados pelos adversários. Sem o governador no estúdio para responder diretamente às críticas, candidatos de diferentes correntes políticas direcionaram boa parte de suas falas à atual administração e também tentaram associá-la politicamente ao ex-governador Reinaldo Azambuja (PL).
Delcídio do Amaral (PRD) classificou a administração estadual como um governo voltado para uma parcela privilegiada da população e atacou o chamado “azambujismo”. A estratégia também foi adotada por Fábio Trad (PT), que procurou apresentar a atual gestão como continuidade do modelo implantado por Azambuja.
O petista aproveitou ainda o debate para reforçar sua ligação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em diferentes momentos, repetiu que é “o candidato do Lula” em Mato Grosso do Sul.
Daniel Lemes (PCO), por sua vez, concentrou críticas em questões sociais e nos conflitos envolvendo comunidades indígenas. O candidato acusou o governo estadual de adotar uma postura inadequada diante de manifestações por água e terras e defendeu uma mudança na relação do poder público com essas comunidades.
A saúde apareceu entre os assuntos que mais renderam críticas ao governo. Fábio Trad citou casos de pacientes que, segundo ele, enfrentaram dificuldades no sistema de regulação estadual. O candidato mencionou pessoas que teriam esperado por atendimento e vagas hospitalares e relacionou os problemas à estrutura de regulação do SUS em Mato Grosso do Sul.
A Operação Gutenberg, que investigou suspeitas relacionadas à gestão da saúde estadual, também entrou no debate.
João Henrique Catan (Novo) aproveitou o tema para apresentar uma de suas principais propostas: a implantação de um prontuário digital, permitindo ao paciente acompanhar pelo celular informações sobre procedimentos e atendimento.
O candidato também criticou a distribuição de recursos entre unidades hospitalares e questionou a situação da Cassems. Entre suas propostas, afirmou que pretende eliminar a cobrança atualmente paga por cônjuges de servidores vinculados ao plano.
Lucien Rezende (PSOL) atacou a promessa de regionalização da saúde e afirmou que a medida não teria produzido os resultados esperados. Já Delcídio voltou a defender investimentos em estrutura e logística para reduzir dificuldades enfrentadas pela população do interior.
Outro ponto de divergência foi a Rota Bioceânica. Delcídio Amaral questionou a forma como o projeto vem sendo tratado e defendeu a utilização de alternativas logísticas, incluindo a recuperação da ferrovia, como estratégia para reduzir os custos de transporte e exportação.
O debate também foi utilizado para críticas à política de incentivos fiscais. Fábio Trad e Renato Gomes (DC) questionaram benefícios concedidos pelo Estado e sustentaram que a renúncia fiscal precisa ser acompanhada de maior transparência e contrapartidas econômicas.
Na segurança pública, Fábio Trad criticou o valor do auxílio-alimentação pago aos policiais militares e questionou o adiamento da convocação de policiais civis.
A discussão sobre servidores públicos também apareceu associada a críticas à administração estadual, embora tenha recebido menos espaço do que os ataques políticos e as denúncias levantadas ao longo do encontro.
Um dos momentos de maior contraste político ocorreu durante as discussões envolvendo o escândalo do Banco Master.
João Henrique Catan, integrante do Novo e conhecido por sua trajetória política próxima ao bolsonarismo, procurou se distanciar tanto do presidente Lula quanto de Flávio Bolsonaro. O deputado estadual afirmou que não estava no debate para defender nenhum dos dois lados.
A postura mostra uma tentativa de apresentar uma identidade própria em uma eleição marcada pela polarização nacional.
Jeferson Bezerra (Agir), por outro lado, direcionou suas críticas principalmente ao PT, utilizando referências religiosas para atacar o partido. Fábio Trad respondeu reafirmando sua identificação com a legenda e com o presidente Lula.
Apesar de o debate ter sido estruturado para permitir o confronto entre os candidatos e o aprofundamento dos programas de governo, a dinâmica acabou sendo dominada por críticas ao adversário.
As propostas apareceram de maneira pontual. Catan falou sobre prontuário digital e mudanças na Cassems; Delcídio defendeu investimentos em logística e ferrovia; Lucien destacou agricultura familiar e trabalhadores; Fábio enfatizou políticas de redução das desigualdades; e Daniel concentrou seu discurso na defesa dos povos indígenas.
O resultado foi um primeiro confronto em que a ausência de Riedel ocupou espaço significativo e acabou funcionando como combustível para os ataques dos demais candidatos.
O encontro também expôs uma característica da disputa que começa a ganhar forma: os adversários tentam transformar a eleição em um julgamento da atual administração, enquanto Riedel, ao optar por não participar desse primeiro debate, evita o confronto direto neste momento.
O governador, porém, já indicou que estará nos próximos confrontos eleitorais, previstos para ocorrer no fim de setembro. A campanha eleitoral começou oficialmente no domingo (16), e os próximos debates deverão colocar os candidatos diante de uma cobrança maior por propostas concretas para áreas como saúde, segurança, educação, infraestrutura, geração de empregos e desenvolvimento econômico.
Com 45 dias de campanha pela frente, o primeiro debate deixa um recado claro sobre a disputa: a eleição começou com ataques, mas os próximos encontros terão de mostrar quem tem propostas capazes de ir além das críticas e apresentar um projeto de governo para os mais de 2 milhões de sul-mato-grossenses.