Sexta, 28 de Agosto de 2026

Obra virou vitrine, mas virou elefante branco: Vila dos Idosos completa 1 ano sem receber moradores em Campo Grande

Inaugurada há um ano, Vila dos Idosos segue vazia e ainda depende de estrutura para funcionar

28/08/2026 às 13h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Divulgação/PMCG
Foto: Divulgação/PMCG

A placa foi instalada, a solenidade aconteceu, autoridades discursaram e a Vila da Melhor Idade foi apresentada como um dos grandes presentes de Campo Grande no aniversário de 126 anos da Capital. Mas, passado um ano, existe uma pergunta que continua sem resposta: quando os idosos vão, de fato, morar ali?

Inaugurado pela prefeita Adriane Lopes (PP) em 29 de agosto de 2025, o condomínio destinado exclusivamente à população idosa chega ao aniversário de um ano sem cumprir aquilo que deveria ser sua principal finalidade: colocar moradores dentro dos apartamentos.

A própria Prefeitura anunciou naquele dia a entrega da obra e o sorteio das 40 unidades. O problema é que a cerimônia não significou a efetiva ocupação do residencial.

E o caso ganhou contornos ainda mais curiosos ao longo dos meses. Em março de 2026, seis meses depois do sorteio, os apartamentos continuavam vazios. Na ocasião, a Emha informou que faltava resolver uma questão relacionada ao fornecimento de energia elétrica. A Energisa, por sua vez, afirmou que aguardava uma providência financeira da Prefeitura para executar a extensão da rede.

Ou seja: o condomínio estava pronto, mas não podia funcionar plenamente.

Um ano depois, promessa ainda não virou endereço

A Vila da Melhor Idade foi concebida para atender 40 idosos de baixa renda por meio do modelo de locação social. Cada apartamento possui 33,70 metros quadrados e foi planejado com recursos de acessibilidade.

O empreendimento também conta com espaços de convivência, sala multiuso, capela e dez salões comerciais no térreo.

A proposta é interessante e socialmente relevante. O problema está justamente na distância entre o projeto apresentado e sua efetiva utilização.

Em agosto de 2025, antes mesmo do sorteio, a Prefeitura já havia divulgado que seriam selecionados 40 moradores e outros 40 suplentes. O programa previa subsídio integral do aluguel pelo município, ficando para o morador o pagamento da taxa condominial.

Para quem aguardava uma oportunidade de sair do aluguel, entretanto, a seleção não significou mudança imediata.

Idosos foram sorteados, mas continuaram esperando

A demora provocou cobrança dos próprios contemplados.

Em março deste ano, idosos sorteados procuraram a Emha para saber quando finalmente poderiam receber as chaves. Segundo a Agência, o problema estava concentrado na questão do transformador e da extensão da rede elétrica.

A situação expôs um paradoxo: um empreendimento entregue oficialmente em agosto de 2025 ainda dependia de providências básicas para começar a funcionar meses depois.

E o custo para colocar o projeto em operação não parou na construção.

Prefeitura precisou pedir mais R$ 2,4 milhões

Em junho de 2026, quase dez meses depois da inauguração, a Prefeitura encaminhou à Câmara pedido de crédito suplementar de R$ 5,2 milhões.

Dentro desse pacote, R$ 2,4 milhões foram destinados à Emha para a contratação de uma organização da sociedade civil responsável por administrar, acompanhar, monitorar e promover atividades na Vila da Melhor Idade.

A informação acrescenta uma nova camada ao episódio: não bastou construir e inaugurar o condomínio. A administração municipal também precisou reservar uma quantia milionária para estruturar a gestão do espaço.

Enquanto isso, os apartamentos que deveriam representar uma nova etapa na vida de 40 idosos permaneceram sem cumprir essa função.

De promessa habitacional a símbolo de obras que demoram a funcionar

A Vila dos Idosos acaba entrando em uma discussão maior sobre a capacidade da atual administração de transformar obras públicas em serviços efetivamente disponíveis à população.

O problema não é apenas inaugurar uma construção. Uma obra pública só cumpre sua finalidade quando pode ser utilizada por quem deveria ser beneficiado por ela.

No caso da Vila, a diferença entre a cerimônia e a vida real ficou evidente: em agosto de 2025, houve evento, sorteio e anúncio oficial. Meses depois, os futuros moradores ainda cobravam uma data para entrar nos apartamentos.

A situação contrasta com a imagem de uma obra pronta e entregue à população.

R$ 12,5 milhões e 40 portas ainda fechadas

O empreendimento também chama atenção pelo custo informado de R$ 12,5 milhões, acima do valor originalmente previsto.

Ao longo da execução, o contrato sofreu sucessivos aditivos, elevando o preço final da obra.

O resultado é um condomínio com 40 apartamentos, áreas comuns e estrutura comercial que deveria representar uma política pública permanente de habitação para idosos.

Mas, para os beneficiários, o que importa não é a placa, a solenidade ou a fotografia da inauguração.

É a chave na mão.

E essa é justamente a parte que demorou a chegar.

Uma inauguração que ainda espera seu principal capítulo

A Vila da Melhor Idade foi anunciada como um projeto inovador para Campo Grande e, de fato, possui uma proposta social importante. A própria Prefeitura apresentou o empreendimento como o primeiro do município no modelo de locação social voltado à população idosa.

Mas um ano depois da cerimônia, o projeto também carrega uma marca incômoda: a inauguração aconteceu antes de a moradia começar a funcionar de verdade.

Para os idosos selecionados, a espera não é apenas administrativa. É uma espera por segurança, estabilidade e dignidade.

Enquanto o poder público contabiliza a obra como entregue, os futuros moradores ainda aguardam que ela seja, finalmente, entregue a eles.

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