Segunda, 14 de Setembro de 2026

Antidotum: investigação aponta saques milionários e mira ex-dirigentes, empresários e servidores

Operação que apura desvio de R$ 4,9 milhões na Santa Casa teve 35 mandados de busca; investigação identificou retirada fracionada de mais de R$ 5,5 milhões em dinheiro

14/09/2026 às 15h05
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Reprodução
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A investigação que levou à deflagração da Operação Antidotum, contra um suposto esquema de fraudes e desvios na Santa Casa de Campo Grande, identificou uma movimentação financeira que chamou a atenção dos investigadores: mais de R$ 5,5 milhões foram retirados em espécie por meio de saques fracionados e transferências, segundo elementos reunidos no procedimento investigatório.

A estratégia, conforme a apuração do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), teria sido utilizada para dificultar o rastreamento dos recursos e evitar alertas nos mecanismos de fiscalização financeira. Os valores teriam saído das contas da Santa Casa e da operadora de saúde por meio de pagamentos a empresas investigadas e, posteriormente, parte do dinheiro teria sido retirada em espécie.

A operação foi deflagrada na sexta-feira (11) pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). A investigação aponta um prejuízo de R$ 4,9 milhões somente em 2025.

Ao todo, a Justiça autorizou 35 mandados de busca e apreensão, alcançando ex-dirigentes e integrantes da atual administração da Santa Casa, empresários, servidores públicos e empresas. A própria instituição hospitalar e a operadora Santa Casa Saúde também estão entre os alvos.

Dinheiro era retirado em pequenas parcelas

Um dos pontos considerados relevantes na investigação é a forma como os recursos teriam sido movimentados.

Segundo o material investigativo, em vez de grandes retiradas únicas, os valores eram divididos em sucessivos saques. Em alguns casos, as retiradas ficavam próximas de R$ 49 mil ou R$ 49,9 mil, mecanismo que, segundo a investigação, dificultaria a identificação automática de movimentações consideradas suspeitas.

Os investigadores também encontraram diferenças expressivas entre a renda declarada por determinados operadores e o volume de dinheiro movimentado em espécie.

Um dos funcionários ligados às empresas investigadas, por exemplo, teria recebido salário mensal de aproximadamente R$ 2,4 mil e, ainda assim, realizado saques que somaram R$ 675.999,98 entre julho de 2024 e maio de 2025.

Em outro caso, a perícia bancária apontou saques de aproximadamente R$ 2,2 milhões realizados por uma única pessoa a partir de valores recebidos do empresário Maurício Aparecido Benites e da empresa RedValue.

Servidores públicos aparecem entre os alvos

A apuração também alcançou servidores públicos que, segundo o Ministério Público, teriam recebido dinheiro em espécie proveniente das empresas investigadas.

Entre os alvos estão Tatiana Rodrigues de Souza, da Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos; Aleida Resende Alves Gonçalves Moreno, do Planurb; e Márcio de Melo Hamana, da Secretaria Municipal de Administração e Inovação.

A presença dos servidores na investigação é apontada pelo MP como parte da apuração sobre a circulação dos recursos e a possível atuação de diferentes núcleos dentro do esquema.

Ex-vice-presidente teve prisão negada

Entre os alvos de busca está Jary de Castro Carvalho, ex-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) e ex-vice-presidente da Santa Casa.

O Ministério Público chegou a pedir a prisão preventiva do engenheiro, mas a solicitação foi negada pela Justiça. Conforme informações da investigação, Jary deixou a diretoria da instituição em janeiro deste ano, e a magistrada entendeu não estarem demonstrados elementos suficientes para mantê-lo preso preventivamente naquele momento.

Além dele, a lista de pessoas atingidas pelas buscas inclui dirigentes e ex-dirigentes da Santa Casa, empresários, funcionários de empresas contratadas e servidores públicos. Entre os nomes estão a presidente da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, além de João Nelson Lyrio, Alessandro Dias Junqueira, Rinaldo Hakme Romano, Monique Gregório de Oliveira, Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa e Maurício Aparecido Benites.

Contratos estão no centro da investigação

A investigação aponta que os recursos teriam sido movimentados a partir de contratos firmados pela Santa Casa e pela operadora de saúde com empresas investigadas.

Um dos contratos analisados envolve a RedValue Tecnologia, contratada para serviços relacionados à digitalização de prontuários. Conforme a investigação, pagamentos realizados pela Santa Casa teriam apresentado valores superiores ao que os investigadores consideram compatível com os serviços efetivamente prestados.

Outro núcleo investigado envolve empresas ligadas ao advogado e empresário Paulo Duarte da Cruz e contratos firmados com a operadora Santa Casa Saúde.

Ao todo, 14 empresas aparecem na relação de investigadas, entre elas RedValue Tecnologia, Exbe Tecnologia e Serviços, Infortech Informática, Duarte Soluções em Saúde, Deisse Medicamentos, Santa Cruz Saúde Gestão em Planos de Saúde, DR Tele Saúde, DR Smart Saúde Telemedicina, Intellectus Soluções em Saúde e Health Life Planos de Saúde.

Prisões e defesa

A Operação Antidotum também resultou em prisões preventivas. Entre os presos estão Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, Alessandro Dias Junqueira, Monique Gregório de Oliveira e o empresário Maurício Aparecido Benites.

Após a audiência de custódia, a defesa de Alir Terra Lima afirmou que ela nega as acusações e sustenta que, como presidente da Santa Casa, não era responsável pela ordenação de despesas. O advogado informou que prepararia pedido de revogação da prisão preventiva.

As investigações seguem em andamento. Os citados são investigados e não foram condenados, e a apuração deverá determinar a responsabilidade individual de cada envolvido e a destinação dos recursos apontados como desviados.

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