Terça, 06 de Outubro de 2026

Emagrecer não deveria ser uma luta contra o próprio corpo

Durante muito tempo, emagrecer foi apresentado como uma equação simples: comer menos e gastar mais. Mas o desafio do emagrecimento vai muito além. Para o médico nutrólogo Caio Cunha, entender metabolismo, composição corporal, sono, comportamento e...

06/10/2026 às 13h39
Por: WK Notícias Fonte: Agência Dino
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Imagem do Magnific/isaac1112
Imagem do Magnific/isaac1112

Segundo a pesquisa Vigitel do Ministério da Saúde, 62,6% dos adultos das capitais brasileiras apresentaram excesso de peso. A obesidade atingia 25,7%, mais que o dobro dos 11,8% registrados em 2006. No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada oito pessoas vivia com obesidade em 2022. A agência ainda classifica a obesidade como uma doença crônica e complexa, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais.

É nesse contexto que uma pergunta começa a ganhar importância: e se a dificuldade para emagrecer não estiver apenas no que a pessoa faz, mas também na forma como o organismo responde? "O paciente muitas vezes não precisa de mais informação. Ele já sabe que precisa comer melhor e se movimentar. O que precisamos descobrir é por que, mesmo sabendo disso, o corpo dele continua dificultando o processo", explica o médico Dr. Caio Cunha.

O corpo também participa do processo

Fome, saciedade, energia e armazenamento de gordura são muito mais complexos, detalha o nutrólogo. "O organismo possui uma complexa rede de sinais que conversa o tempo inteiro com o cérebro e ajuda a determinar quando sentimos fome, quando estamos satisfeitos e como o corpo utiliza e armazena energia", completa.

E é aqui que entram os hormônios, defende o especialista. "A insulina, por exemplo, ajuda a levar a glicose que circula no sangue para as células, onde ela pode ser utilizada como energia. Quando existe resistência à ação da insulina, o organismo precisa produzir mais desse hormônio para conseguir manter a glicose sob controle. Essa alteração costuma estar associada a problemas metabólicos e pode fazer parte do contexto de pessoas com excesso de peso", contextualiza o Dr. Caio Cunha.

A leptina funciona como um dos sinais de "estou satisfeito" do organismo. Ela é produzida pelo tecido de gordura e informa ao cérebro que existem reservas energéticas disponíveis. E a tireoide também entra em pauta. Os hormônios produzidos por ela ajudam a regular o ritmo do metabolismo. Quando existe hipotireoidismo, por exemplo, podem aparecer sintomas como cansaço, frio, intestino mais lento e algum ganho de peso. Mas, de acordo com o Dr. Caio Cunha, "é importante lembrar que nem todo ganho de peso é problema de tireoide, e corrigir uma alteração tireoidiana não significa automaticamente perder todo o excesso de peso".

E existe ainda o cortisol, frequentemente chamado de "hormônio do estresse". Ele é necessário para o funcionamento normal do organismo, mas alterações relacionadas ao estresse crônico e ao sono inadequado podem interferir na fome, no comportamento alimentar e na composição corporal.

Para o médico, "não é que exista um hormônio responsável por engordar ou emagrecer. O que existe é uma conversa muito mais complexa entre cérebro, hormônios, tecido adiposo, sono, alimentação e comportamento". Às vezes, complementa, o primeiro sinal não aparece na balança. A dificuldade para emagrecer pode vir acompanhada de outros sinais: cansaço persistente, dificuldade de perceber saciedade, alterações na disposição e mudanças na composição corporal podem fazer parte.

Conforme o Dr. Caio Cunha aponta: "Às vezes, o paciente chega falando do peso, mas, quando começamos a conversar, percebemos que há anos ele não dorme bem, vive cansado ou sente fome poucas horas depois das refeições. O peso é apenas uma parte da história. Por isso, a investigação precisa olhar para o conjunto".

Quando a mulher precisa ser avaliada de outra maneira

Essa individualização ganha ainda mais importância em fases como o climatério e a menopausa. "As mudanças hormonais dessa transição podem acompanhar alterações na distribuição de gordura, massa muscular, sono e metabolismo. Por isso, uma estratégia que funcionou em uma fase da vida pode precisar ser revista em outra", considera o Dr. Caio Cunha.

O mesmo cuidado vale para o lipedema, uma condição que não deve ser confundida simplesmente com excesso de peso ou celulite. A distribuição desproporcional de tecido adiposo, frequentemente acompanhada de dor ou sensibilidade, apresenta características próprias e exige avaliação adequada. "São mulheres que muitas vezes chegam ao consultório depois de anos ouvindo que não estavam se esforçando o suficiente. Antes de pensar em mais restrições, precisamos entender o que realmente está acontecendo", aponta o médico.

Jejum intermitente como parte da estratégia

O jejum intermitente pode ser uma ferramenta para alguns pacientes. Para determinadas pessoas, reduzir a janela alimentar pode facilitar a organização das refeições e contribuir para a redução da ingestão energética. "Não existe uma regra de que todo mundo precisa comer de três em três horas, assim como não existe uma regra de que todo mundo precisa fazer jejum. A estratégia precisa fazer sentido para aquela pessoa", orienta.

O médico enfatiza que o objetivo não é apenas perder peso. "No fim, a proposta é mudar a pergunta. Em vez de perguntar apenas: ‘Quantos quilos você precisa perder?’, precisamos investigar: ‘O que está acontecendo com esse organismo e o que podemos fazer para que ele funcione melhor?’. Essa diferença muda toda a estratégia", pondera o nutrólogo.

"Meu objetivo não é fazer alguém passar alguns meses em uma dieta e depois voltar para a vida de antes. É construir, junto com o paciente, uma estratégia que ele consiga manter por anos. Porque, no emagrecimento, perder peso pode ser o começo. Mas sustentar o resultado é o verdadeiro desafio", finaliza Dr. Caio Cunha.

Para mais informações, basta acessar: https://drcaiocunha.com/

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