Quarta, 07 de Outubro de 2026

Santa Casa fecha cardiopediatria e deixa crianças do SUS sem cirurgia cardíaca em MS

Único serviço de referência do Estado interrompe atendimento, transfere pacientes para outros estados e expõe o colapso de uma assistência essencial à infância

07/10/2026 às 13h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A crise da Santa Casa de Campo Grande atingiu um dos serviços mais delicados da saúde pública de Mato Grosso do Sul. O hospital fechou a cirurgia cardíaca pediátrica e deixou de realizar procedimentos em crianças com cardiopatias congênitas, obrigando pacientes a serem transferidos para unidades de referência em São Paulo e no Paraná.

A situação representa a interrupção de um serviço que era referência do SUS para esse tipo de atendimento no Estado. O fechamento ocorre após o agravamento de uma crise que envolve falta de profissionais especializados, dificuldades financeiras, problemas estruturais e atrasos no pagamento de equipes médicas.

O alerta já havia sido dado no início de setembro. A Santa Casa comunicou à Secretaria Municipal de Saúde a suspensão temporária das cirurgias cardíacas pediátricas congênitas eletivas por falta da equipe necessária para realizar os procedimentos com segurança. Dos dois cirurgiões especializados que integravam o serviço, um estava afastado por motivo de saúde e o outro havia solicitado rescisão contratual.

Naquele momento, quatro crianças permaneciam internadas aguardando cirurgia. A situação, porém, não foi solucionada e evoluiu para o fechamento do serviço.

Agora, quatro pacientes já foram retirados da Santa Casa e encaminhados para unidades do SUS no interior de São Paulo e para o hospital de referência em Curitiba. Uma quinta criança permanece internada em Campo Grande porque ainda não apresenta condições clínicas para enfrentar a transferência. Assim que houver estabilidade, a previsão é que ela também seja encaminhada para tratamento fora de Mato Grosso do Sul.

Crise desmontou estrutura de alta complexidade

O fechamento da cardiopediatria não aconteceu de forma isolada. Antes da interrupção, a equipe médica já apontava dificuldades para manter os procedimentos diante da falta de profissionais, materiais e leitos de UTI pediátrica.

A estrutura de terapia intensiva também era considerada insuficiente para atender à demanda. O setor contava com seis leitos, número que permaneceu inalterado por décadas, enquanto a população do Estado cresceu e os diagnósticos de cardiopatias passaram a ocorrer cada vez mais cedo.

A própria Santa Casa reconheceu que a disponibilidade reduzida de especialistas dificultava a recomposição imediata da equipe. O hospital também apontou desequilíbrio econômico-financeiro no contrato com o SUS e afirmou que a situação afetava a manutenção de profissionais, medicamentos, insumos e materiais.

Em setembro, a gestão hospitalar já havia admitido que não tinha condições de manter o atendimento especializado sem uma solução conjunta envolvendo os diferentes níveis de governo. A ala permaneceu fechada enquanto se buscava uma alternativa para recompor a equipe e a estrutura necessária.

Crianças agora dependem de atendimento fora do Estado

Na prática, o fechamento transferiu para a rede interestadual uma responsabilidade que vinha sendo cumprida dentro de Mato Grosso do Sul.

Além da necessidade de encontrar vagas em hospitais especializados, a transferência de crianças cardiopatas exige articulação da regulação do SUS e condições de transporte compatíveis com o quadro clínico dos pacientes.

O problema também aumenta a pressão sobre a rede pública. Antes mesmo do fechamento definitivo, já havia preocupação com o impacto da redução dos serviços da Santa Casa sobre outros hospitais e unidades de saúde de Campo Grande. O Conselho Municipal de Saúde relatou aumento da pressão sobre o Hospital Regional e maior permanência de pacientes nas UPAs.

Prefeitura mantém tratativas, mas solução ainda não saiu

A Secretaria Municipal de Saúde afirma que a cirurgia cardíaca congênita não foi retirada das discussões relacionadas ao contrato com a Santa Casa. Segundo a pasta, existe disposição para manter o serviço, desde que estejam asseguradas as condições estruturais necessárias para a realização dos procedimentos.

A Sesau também informou anteriormente que estudava um edital de credenciamento para ampliar a oferta de cardiologia pediátrica e criar uma alternativa para a rede pública diante da paralisação na Santa Casa.

O impasse, entretanto, permanece. A Santa Casa não retomou as cirurgias cardíacas pediátricas e as crianças que necessitam de procedimentos passaram a depender de unidades localizadas fora de Mato Grosso do Sul.

O cenário transforma a crise administrativa e financeira do hospital em um problema de saúde pública de alcance estadual. Para as famílias de crianças com cardiopatias congênitas, o atendimento que antes estava disponível em Campo Grande agora significa deslocamento para outros estados, transferência de pacientes e dependência de uma rede especializada que Mato Grosso do Sul deixou, ao menos por enquanto, de oferecer.

A situação também coloca em xeque a capacidade da rede pública de garantir continuidade a um atendimento de alta complexidade justamente para pacientes que não podem esperar por uma solução indefinida.

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