
A disputa pelo comando da política econômica do próximo governo Lula já começou, e os sinais são preocupantes. Enquanto integrantes do PT defendem mudanças profundas na condução dos juros e questionam a atuação do mercado financeiro, investidores cobram responsabilidade fiscal e previsibilidade. No centro desse embate está uma proposta que pode comprometer ainda mais a confiança na economia brasileira: reduzir a taxa Selic de 13,75% para aproximadamente 7,5% em apenas 12 meses.
A ideia apresentada pelo economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, não provocou apenas um debate técnico. Abriu uma crise política dentro da própria base governista e levantou questionamentos sobre até que ponto o governo pretende respeitar os mecanismos institucionais de controle da inflação e a autonomia do Banco Central.
Além da redução acelerada dos juros, Lara Resende defende a criação de um mecanismo para estabelecer metas conjuntas para as políticas fiscal e monetária. Na prática, a proposta pretende alterar a estrutura atual de decisões econômicas e ampliar a influência do governo sobre os rumos da política monetária.
O problema é que a discussão ocorre justamente quando o mercado espera sinais concretos de compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Sem apresentar um plano convincente para controlar despesas e conter o crescimento da dívida, o governo passa a alimentar dúvidas sobre a sustentabilidade de suas decisões econômicas.
ALA DO PT INCENTIVA PROPOSTA ENQUANTO FAZENDA TENTA APAGAR O INCÊNDIO
A repercussão expôs o conflito entre diferentes correntes do governo. A ex-ministra Gleisi Hoffmann saiu em defesa do artigo de Lara Resende, classificando-o como fundamental para enfrentar o que chamou de ofensiva contra a política fiscal brasileira.
José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula, também demonstrou apoio à discussão e defendeu atenção à criação de um conselho mais amplo para coordenar as decisões fiscais e monetárias.
O entusiasmo de integrantes ligados ao PT, porém, contrasta com a postura da equipe econômica. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, precisou negar publicamente que exista uma reunião agendada entre Lula e Lara Resende e garantiu que a proposta de tabelamento dos juros não está na agenda presidencial.
A necessidade de fazer esse esclarecimento revela o tamanho do desconforto provocado pela discussão. Quando declarações de aliados obrigam o ministro da Fazenda a correr para tranquilizar investidores, fica evidente a dificuldade do governo em transmitir uma mensagem econômica coerente.
BOLSA DESPENCA, DÓLAR SOBE E INVESTIDORES COBRAM SEGURANÇA
A desconfiança não ficou restrita ao discurso. O mercado financeiro reagiu com novas perdas na Bolsa, valorização do dólar e pressão sobre os juros futuros.
Na terça-feira (3), o Ibovespa caiu 1,42%, registrando a sexta sessão consecutiva de perdas. O dólar avançou 0,79%, encerrando o dia cotado a R$ 5,48. Os contratos de juros futuros também subiram, sinalizando que investidores passaram a exigir remuneração maior para financiar o governo brasileiro.
O estrago acumulado na semana de 26 a 30 de outubro foi ainda mais expressivo: o Ibovespa perdeu 18,12%, enquanto as empresas listadas na B3 tiveram redução de R$ 963 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento da Elos Ayta.
Não se trata de uma reação que possa ser simplesmente descartada como resistência política ao governo. O mercado reage às expectativas sobre inflação, dívida pública, câmbio e capacidade de o país honrar seus compromissos. Quando a confiança diminui, o custo aparece na economia real, atingindo empresas, investimentos, crédito e consumidores.
Economistas alertam que tentar reduzir artificialmente os juros sem uma política fiscal sustentável pode produzir justamente o efeito contrário ao pretendido: desvalorização do real, aumento das expectativas inflacionárias e juros mais elevados no longo prazo.
O professor John Cochrane, da Universidade Stanford, também apontou que a proposta depende de um elemento fundamental: a confiança dos investidores na capacidade do governo de manter resultados fiscais consistentes ao longo do tempo.
GOVERNO NÃO EXPLICA COMO PRETENDE EQUILIBRAR AS CONTAS
Outro fator que agrava a crise é a ausência de um plano claro para o ajuste fiscal. Até agora, não há definição sobre a composição da equipe econômica do próximo mandato nem sobre quais medidas serão adotadas para controlar as despesas públicas.
O governo terá de escolher entre medidas politicamente difíceis, como cortes de gastos, revisão de benefícios tributários ou ampliação da arrecadação. Entretanto, enquanto essas decisões não aparecem, integrantes da base aliada trabalham para enfraquecer o discurso de austeridade.
A situação é contraditória: o governo sinaliza interesse em reduzir drasticamente os juros, mas ainda não apresentou garantias suficientes de que conseguirá controlar as contas públicas. Não existe solução duradoura para o custo do crédito baseada apenas na pressão sobre o Banco Central.
O Boletim Focus também mostrou deterioração das expectativas, com revisões para cima nas projeções de dólar, inflação e taxa Selic. É um sinal de que a falta de clareza sobre os próximos passos da política econômica já começa a contaminar as previsões dos agentes financeiros.
DISCURSO CONTRA O MERCADO NÃO RESOLVE OS PROBLEMAS DA ECONOMIA
Parte dos aliados de Lula sustenta que o governo não deve se submeter às cobranças da Faria Lima. O argumento de que o mercado não pode determinar os rumos do país ganhou força entre integrantes mais radicais do PT.
Mas existe uma diferença entre não governar sob pressão de investidores e ignorar os efeitos da perda de confiança. O mercado não precisa aprovar decisões políticas, mas a deterioração das expectativas tem consequências concretas: crédito mais caro, investimentos adiados, pressão cambial e maior dificuldade para financiar a dívida pública.
A economista Isadora Araújo, da GEP Brasil, chama atenção justamente para a falta de definição sobre a origem do ajuste fiscal. Embora exista expectativa de que o governo apresente medidas, ainda não está claro de onde sairão os recursos necessários para equilibrar as contas.
O cientista político Leandro Gabiati, por sua vez, avalia que Lula pode estar ouvindo diferentes grupos antes de definir sua estratégia. O presidente tem margem política para escolher seus caminhos, mas essa liberdade não elimina os custos econômicos de decisões equivocadas.
LULA TERÁ DE ESCOLHER ENTRE O DISCURSO POLÍTICO E A RESPONSABILIDADE FISCAL
O episódio expõe um problema que vai além da taxa básica de juros: a falta de unidade sobre qual política econômica o governo pretende adotar. Enquanto a ala política do PT estimula propostas de mudança na condução monetária, a equipe da Fazenda tenta evitar que as declarações provoquem uma crise ainda maior de confiança.
O presidente não pode tratar a desconfiança dos investidores como simples perseguição política, assim como não pode transformar a redução dos juros em uma promessa dissociada das condições econômicas do país.
A tentativa de forçar uma queda da Selic sem enfrentar o desequilíbrio fiscal pode produzir inflação, fuga de capitais e uma conta ainda mais pesada para a população. No fim, quem paga pela instabilidade não é a Faria Lima, mas o cidadão que enfrenta crédito caro, preços elevados e menos oportunidades de emprego.
A economia exige mais do que discursos contra o mercado ou promessas de juros menores. Exige planejamento, responsabilidade e decisões capazes de recuperar a confiança. Sem isso, o governo corre o risco de transformar uma disputa interna em mais um foco de instabilidade para o Brasil.