Sexta, 06 de Novembro de 2026

Reforma tributária ameaça começar sob pressão e governo já admite discutir adiamento de até seis meses

A menos de dois meses da entrada em vigor da primeira etapa do novo sistema, indefinições sobre impostos, sistemas e regras operacionais expõem a falta de preparação; empresários cobram respostas, enquanto a possibilidade de postergar o calendário ganha força nos bastidores de Brasília

06/11/2026 às 15h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Reprodução
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A reforma tributária aprovada durante o governo Lula corre o risco de começar cercada de incertezas. A poucos meses da data prevista para o início da nova etapa, em 1º de janeiro de 2027, integrantes do próprio governo já admitem, nos bastidores, a possibilidade de adiar a implementação por até seis meses. A discussão revela a dimensão das dificuldades para colocar em funcionamento um dos projetos econômicos mais importantes do atual governo.

O cenário é preocupante: empresas precisam se preparar para mudanças profundas na tributação, mas ainda enfrentam dúvidas sobre alíquotas, regulamentações, sistemas de apuração e procedimentos fiscais. A pressão do setor produtivo aumentou diante da proximidade do prazo e da ausência de definições consideradas essenciais para uma transição segura.

A eventual postergação, entretanto, não seria uma decisão simples. Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil nesta sexta-feira (6), o governo trabalha com três condições: o adiamento não poderia ultrapassar seis meses, precisaria ser negociado com o Congresso Nacional e não poderia alterar o conteúdo da reforma já aprovada.

A possibilidade representa um sinal de alerta para a condução da política econômica. Afinal, um cronograma dessa dimensão deveria ter sido acompanhado de planejamento, regulamentação e instrumentos operacionais suficientes para evitar que empresas fossem surpreendidas às vésperas da mudança.

Alíquota da CBS vira o primeiro grande impasse

Um dos pontos mais delicados é a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), novo tributo federal que substituirá PIS e Cofins. A cobrança está prevista para começar em janeiro de 2027, mas o percentual de referência ainda depende de definição pelo Senado.

O Tribunal de Contas da União (TCU) calculou a alíquota em 11,3%, percentual superior ao parâmetro anteriormente apresentado pelo Comitê Gestor. A diferença de 2,2 pontos percentuais ampliou a preocupação de empresários e especialistas com os efeitos financeiros da mudança.

O assunto também chegou ao Senado. O líder do MDB, Eduardo Braga (AM), defendeu que o índice seja discutido antes da aprovação. O problema é que uma definição muito próxima da entrada em vigor deixaria pouco tempo para que as empresas revisassem seus planejamentos, atualizassem sistemas, recalculassem preços e renegociassem contratos.

Na prática, o setor produtivo pode ser obrigado a fazer mudanças estruturais sem conhecer antecipadamente todos os parâmetros que determinarão seus custos tributários.

Empresas enfrentam uma reforma ainda cheia de lacunas

A preocupação não se limita à alíquota. Empresas apontam que o sistema de apuração assistida dos novos tributos ainda não está plenamente operacional e que o poder público demorou a disponibilizar regras e ferramentas necessárias à adaptação.

Entre as pendências estão:

  • Definição dos produtos que terão alíquota zero de IPI em 2027;

  • Relação dos benefícios de ICMS que poderão receber compensação;

  • Liberação dos testes da apuração assistida para o público em geral;

  • Regulamentação do split payment, incluindo sua obrigatoriedade, situações de aplicação e remuneração dos arranjos de pagamento;

  • Disponibilização de layouts e testes de documentos fiscais;

  • Orientações para o reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão;

  • Definição das competências para julgamento de disputas envolvendo decisões do Comitê Gestor e conflitos que atinjam estados e municípios.

São questões que interferem diretamente na rotina das empresas. Sem essas definições, o risco é transformar a implantação de uma reforma anunciada como simplificadora em uma corrida contra o tempo, marcada por insegurança jurídica e aumento dos custos de adaptação.

Promessa de simplificação enfrenta temor de impostos maiores

Outro ponto que alimenta a resistência do setor econômico é a expectativa de aumento da carga tributária.

Especialistas estimam que a alíquota final do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que reunirá CBS e IBS, poderá ultrapassar 30%. Se essa projeção se confirmar, o Brasil poderá superar a Hungria, que atualmente possui IVA de 27%, e assumir a posição de país com a maior tributação sobre o consumo do mundo.

Embora a reforma tenha sido apresentada como instrumento para simplificar o sistema e reduzir distorções, o tamanho da alíquota estimada provoca questionamentos sobre o impacto real da mudança para consumidores e empresas.

O risco é que a prometida modernização tributária termine acompanhada de preços mais elevados, custos operacionais maiores e novas dificuldades para quem produz e investe no país.

Governo enfrenta contradição sobre o calendário

Apesar das informações de bastidores sobre uma possível postergação, não existe decisão oficial de adiamento. O cenário também apresenta uma divergência importante: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo pretende manter o início da reforma em janeiro de 2027, sinalizando, em contrapartida, flexibilizações de prazos e multas para facilitar a adaptação das empresas.

A diferença entre a discussão interna e a posição pública da equipe econômica evidencia a pressão enfrentada pelo governo.

O impasse coloca Brasília diante de uma escolha delicada: insistir no calendário mesmo com pendências operacionais ou admitir que a estrutura necessária para colocar a reforma em funcionamento ainda não está completamente preparada.

Por enquanto, o adiamento permanece no campo das possibilidades. Mas o simples fato de integrantes do governo já discutirem essa alternativa, tão perto da data prevista, expõe uma fragilidade preocupante na condução de uma mudança que afetará praticamente toda a economia brasileira.

O desafio agora é impedir que uma reforma concebida para simplificar a vida dos contribuintes comece produzindo justamente o contrário: incerteza, insegurança e mais custos para quem movimenta a economia.

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