Terça, 07 de Abril de 2026

Janela partidária expõe guerra política em MS e abre crise por mandatos, traições e articulações para 2026

rocas fora do prazo, disputas judiciais e reação de lideranças nacionais colocam vereadores e partidos em rota de colisão no Estado

07/04/2026 às 13h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A movimentação política em Mato Grosso do Sul entra em um dos momentos mais tensos dos últimos anos, marcada por trocas partidárias arriscadas, ameaças de cassação de mandato e uma crise aberta entre lideranças estaduais e nacionais. O cenário, impulsionado pelo fim do prazo de filiações, já projeta uma eleição de 2026 cercada por disputas judiciais e reconfiguração de forças.

Embora a janela partidária deste ano tenha sido aberta apenas para deputados, vereadores ignoraram a limitação e aproveitaram os últimos dias para mudar de sigla, assumindo o risco de perder os mandatos. A estratégia revela uma aposta clara na sobrevivência política, mesmo diante de possíveis sanções legais.

Em Campo Grande, Marquinhos Trad deixou o PDT e se filiou ao PV com o objetivo de disputar uma vaga de deputado federal. Movimento semelhante ocorreu em Corumbá, onde Chicão Viana trocou o PSD pelo Republicanos, e em Paranaíba, com Sindoley Morais migrando do União Brasil para o PL. As mudanças seguem o mesmo caminho adotado por Lia Nogueira em 2022, que também trocou de partido, mas evitou questionamentos judiciais ao se eleger deputada estadual.

Diferentemente daquele cenário, os atuais movimentos já provocam reação imediata. O presidente estadual do PDT, Carlos Eduardo Gomes, anunciou que acionará a Justiça para tentar retomar o mandato de Marquinhos Trad, alegando infidelidade partidária. A defesa do vereador se baseia em uma autorização assinada pelo vice-presidente estadual da legenda, Enelvo Felini, mas a validade do documento é contestada pela direção partidária, que promete, inclusive, expulsão.

A legislação eleitoral é clara ao estabelecer que os mandatos pertencem aos partidos, não aos eleitos. Com isso, a troca de sigla fora da janela abre brecha para que suplentes recorram à Justiça. Em Campo Grande, Salah Hassan já mobiliza apoiadores e pode assumir a vaga; em Paranaíba, o beneficiado seria Marciel Manin; e em Corumbá, Pietro Candia aparece como primeiro na linha sucessória.

O episódio expõe não apenas disputas locais, mas também o desgaste estrutural de partidos. O PDT, por exemplo, já enfrenta outra batalha judicial envolvendo o deputado Lucas de Lima, em um processo que se arrasta há mais de um ano sem definição. Em nível nacional, a legenda encolheu drasticamente, perdendo força política e representatividade.

Enquanto isso, o PSDB vive um verdadeiro colapso em Mato Grosso do Sul. A saída em massa de deputados federais provocou indignação na cúpula nacional e desencadeou uma reação incomum: o partido foi oferecido ao deputado estadual João Henrique Catan, adversário direto do grupo ligado ao ex-governador Reinaldo Azambuja e ao atual governador Eduardo Riedel.

A revolta se deu após o descumprimento de promessas feitas por parlamentares que haviam sinalizado permanência na sigla. A debandada, liderada inicialmente por Beto Pereira e seguida por Dagoberto Nogueira e Geraldo Resende, esvaziou completamente a representação tucana na Câmara Federal .

Mesmo diante da oferta, João Henrique adotou cautela e confirmou diálogo com diferentes partidos, sem compromisso firmado. Nos bastidores, a movimentação evidencia o isolamento do PSDB no Estado e a tentativa de sobrevivência da legenda.

Após a crise, o deputado estadual Pedro Caravina assumiu protagonismo e lidera uma tentativa de reconstrução do partido. Reuniões com vereadores em Campo Grande já indicam uma nova estratégia: formar chapas mais equilibradas, evitando a concorrência interna com nomes de grande peso eleitoral.

A reorganização busca garantir, ao menos, uma cadeira na Câmara dos Deputados, em um cenário onde o quociente eleitoral e a fragmentação partidária serão decisivos.

Paralelamente, o PL também intensifica suas articulações. O vereador Rafael Tavares aguarda a visita do senador Flávio Bolsonaro para definir se disputará vaga na Assembleia Legislativa ou na Câmara Federal. A decisão será alinhada com a direção nacional do partido e faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da legenda no Estado.

A presença de Flávio em Campo Grande, durante a Expogrande, já provoca reações políticas. Enquanto aliados articulam homenagens e reforçam alianças, a oposição se mobiliza com manifestações contrárias, evidenciando o clima de polarização crescente.

O pano de fundo de toda essa movimentação é um cenário de intensa reorganização política. A janela partidária deste ano já havia provocado mudanças profundas, com metade dos deputados estaduais trocando de legenda e partidos tradicionais perdendo espaço .

Agora, com vereadores entrando na disputa de forma irregular e partidos enfrentando crises internas, Mato Grosso do Sul antecipa um processo eleitoral marcado por judicialização, disputas internas e rearranjos estratégicos.

Mais do que uma simples troca de siglas, o que se vê é uma guerra aberta por sobrevivência política — onde o risco de perder o mandato se tornou apenas mais uma variável no jogo pelo poder.

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