
Com as convenções partidárias encerradas e o prazo para registro das candidaturas se aproximando, a disputa pelas duas vagas de Mato Grosso do Sul no Senado entrou em uma nova fase. O cenário que já era fragmentado ficou ainda mais imprevisível depois que Nelsinho Trad (PSD) desistiu da candidatura à reeleição para assumir a primeira suplência de Reinaldo Azambuja (PL).
A mudança alterou não apenas a composição da chapa de Reinaldo, mas também o mapa de alianças construído por prefeitos, deputados, vereadores e lideranças do interior. Agora, com dois votos para o Senado disponíveis para cada eleitor, a chamada “dobra” — quando uma liderança pede votos para candidatos diferentes ao Senado — ganha peso estratégico na campanha.
Mato Grosso do Sul terá duas cadeiras em disputa e nove candidatos confirmados ao Senado. Entre os nomes estão Reinaldo Azambuja, Capitão Contar, Soraya Thronicke e Vander Loubet.
A decisão de Nelsinho Trad foi uma das principais reviravoltas da eleição. O senador, que vinha aparecendo entre os nomes competitivos nas pesquisas, deixou a disputa e passou a integrar a chapa de Reinaldo como primeiro suplente.
Pesquisa Real Time Big Data divulgada no início de agosto mostrou Reinaldo com 30% das intenções de voto, Capitão Contar com 19% e Nelsinho, antes da retirada, com 15%.
A saída de Nelsinho libera uma fatia importante do eleitorado e, principalmente, altera as negociações políticas nos municípios. Lideranças que anteriormente tinham compromisso com o senador agora precisam decidir para quem direcionar o segundo voto.
É justamente nesse espaço que a eleição pode ganhar novos contornos.
Com Nelsinho ao seu lado, Reinaldo passa a ter também a estrutura política construída pelo senador ao longo dos últimos anos.
Ao mesmo tempo, segundo apuração dos bastidores, o ex-governador busca manter o apoio a Capitão Contar, seu companheiro de partido na disputa, mas também conversa com outros candidatos para possíveis composições de voto.
Entre os nomes que aparecem nesse cenário estão Vander Loubet (PT) e Soraya Thronicke (PSB).
Na prática, uma liderança poderá pedir um voto para um candidato de determinada chapa e o segundo voto para outro nome, ainda que os candidatos estejam formalmente em projetos políticos diferentes.
É uma dinâmica que pode gerar situações inusitadas durante a campanha: aliados no palanque para uma disputa e adversários em outra.
O termo “traição” já faz parte da história eleitoral de Mato Grosso do Sul quando o assunto são as dobradas para o Senado.
Em 2010, Zeca do PT reclamou publicamente de articulações dentro do próprio partido e apontou que Delcídio do Amaral, então candidato ao Senado, estaria fazendo dobradas com Waldemir Moka (MDB), adversário de Zeca na disputa. No fim, Delcídio e Moka foram eleitos.
Agora, 16 anos depois, a lógica das dobradas volta a ganhar força.
A diferença é que, desta vez, a fragmentação é ainda maior e o eleitor terá dois votos para escolher os representantes do Estado no Senado.
Capitão Contar aparece como outro personagem importante desse jogo.
Embora esteja no mesmo partido de Reinaldo, os dois disputam diretamente uma das duas vagas e precisam ampliar suas próprias redes de apoio.
Nos bastidores, Contar também é associado a uma possível aproximação eleitoral com João Henrique Catan, candidato do Novo ao Governo do Estado. Os dois estiveram juntos na eleição de 2022, quando Contar chegou ao segundo turno.
Agora, porém, estão em projetos diferentes: Catan disputa o Governo pelo Novo, enquanto Contar tenta uma cadeira no Senado pelo PL.
O Novo tem Roberto Oshiro como candidato ao Senado. O partido, entretanto, chegou a trabalhar com a possibilidade de lançar dois nomes para as duas vagas. Oshiro foi confirmado como candidato da legenda e integra o projeto majoritário de Catan.
Essa configuração mantém aberta a possibilidade de uma composição informal para o segundo voto.
A retirada de Nelsinho também pode beneficiar candidatos que possuem redes próprias de relacionamento com prefeitos e deputados.
Vander Loubet, do PT, e Soraya Thronicke, do PSB, são nomes que possuem mandato e histórico de articulação política no Estado. A possibilidade de dobradas entre eles ou com candidatos de outros grupos pode ganhar força justamente pela necessidade de cada candidatura buscar um segundo voto.
Uma eventual aproximação, contudo, não significa uma aliança formal. São articulações eleitorais que podem ocorrer diretamente nos municípios, dependendo dos interesses de lideranças locais.
A própria movimentação recente mostra como o cenário ainda está aberto. Reportagem publicada nesta semana apontou que Vander e Soraya rejeitaram a possibilidade de desistência da disputa, mantendo suas candidaturas.
O cenário é ainda mais peculiar porque, entre os grupos formados para a eleição, poucas chapas apresentam dois candidatos ao Senado.
A disputa, portanto, não será apenas entre candidatos. Será também uma batalha pela segunda escolha do eleitor.
Para quem disputa a primeira posição, conquistar o primeiro voto pode não ser suficiente. Será necessário evitar que o segundo voto seja direcionado a um concorrente direto.
É justamente aí que entram prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, que podem atuar como peças fundamentais na montagem das dobradas.
Com as candidaturas definidas nas convenções e o registro ainda dentro do calendário eleitoral, o jogo de alianças está longe de estar totalmente estabilizado.
A saída de Nelsinho mostrou que uma única decisão pode alterar completamente o equilíbrio da disputa. Agora, o movimento de cada liderança pode produzir efeito sobre duas candidaturas ao mesmo tempo.
No caso do Senado, cada eleitor terá dois votos. E, em uma eleição com nove candidatos para apenas duas vagas, o segundo voto pode ser tão decisivo quanto o primeiro.
Por isso, a campanha de 2026 em Mato Grosso do Sul começa a ganhar uma característica peculiar: muito mais do que convencer o eleitor a escolher um candidato, os grupos políticos precisarão convencê-lo sobre quem deve receber o segundo voto.
E é nesse espaço que as dobradas — inclusive entre adversários — podem definir quem chegará ao Senado em 2027.