
O que deveria representar atendimento médico à população terminou transformado, segundo as investigações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, em um esquema de fraude contra os cofres públicos. A segunda fase da Operação Auditus, deflagrada pelo Gecoc e pelo Gaeco, revelou que listas usadas para comprovar consultas e exames pagos pela Prefeitura de Nioaque continham bebês, crianças e até pessoas que já haviam morrido.
Cinco pessoas foram presas preventivamente e 12 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Nioaque, Jardim, Bela Vista, Guia Lopes da Laguna e Bonito. O prejuízo estimado somente em Nioaque chega a R$ 4 milhões, segundo o Gecoc. A investigação aponta que aproximadamente 83% dos exames e consultas pagos pelo município entre 2022 e 2025 teriam sido simulados.
A investigação aponta que o grupo utilizava listas de atendimento aparentemente regulares para justificar pagamentos por serviços que, em grande parte, não teriam sido realizados.
Segundo o Gecoc, eram utilizados mecanismos como falsificação de assinaturas de pacientes e profissionais de saúde, duplicação de registros, inclusão de pessoas mortas e lançamento de procedimentos incompatíveis com a idade dos supostos pacientes. Também foram identificados exames sem laudos e procedimentos sem respaldo clínico.
Um dos casos mais absurdos encontrados pelos investigadores envolve crianças. Uma menina de 11 meses e outra de 3 anos aparecem em listas como se tivessem assinado documentos de atendimento. A investigação também encontrou registros de consultas com angiologista atribuídas a duas pessoas que já haviam morrido antes das datas indicadas para os atendimentos.
O esquema teria chegado ainda a exames de triagem neonatal. Mães de crianças que apareciam em listas referentes ao teste da orelhinha, por exemplo, afirmaram que os filhos nunca haviam realizado os procedimentos pela clínica investigada.
A investigação aponta que o volume de recursos movimentados cresceu de maneira expressiva durante o período investigado. Segundo o Gecoc, os gastos com serviços médicos contratados pelo município aumentaram 1.713% entre 2022 e 2025.
O contrato envolvendo a clínica investigada teria saltado de aproximadamente R$ 43 mil para cerca de R$ 4,2 milhões em 2022, período apontado como ápice do esquema.
O Ministério Público estima que o prejuízo aos cofres de Nioaque chegou a aproximadamente R$ 4 milhões, com a maior parte dos exames e consultas pagos sem comprovação efetiva de realização.
A empresa investigada é a Prontomed Clínica Médica, atualmente denominada Policlínica Rota Bioceânica, localizada em Jardim. O estabelecimento pertence ao médico-legista Robson Roosevelt Ferreira Aguilar, que também foi preso na operação.
Além dele, foram presos Bianca Fernandes Leite Aguilar, Tatiane Barbosa de Souza Grubert, Márcia Cristiane Missioneira Jara e Vagner Alves Ribeiro Guimarães. A investigação aponta participação de agentes públicos e privados na estrutura que teria permitido o direcionamento de contratações e a execução das fraudes.
Robson também é servidor público estadual e atuava como perito oficial forense. Após a prisão, foi afastado das funções públicas relacionadas à Polícia Científica, enquanto a Corregedoria instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos.
O caso ganhou proporções ainda maiores porque, segundo o Gecoc, o suposto esquema não teria ficado restrito a Nioaque. As investigações apontam que o mesmo modelo de atuação teria sido levado para Guia Lopes da Laguna e Bela Vista.
Em Guia Lopes, a clínica recebeu aproximadamente R$ 944,8 mil entre 2022 e 2025 por serviços médicos, exames de raio-X, cardiologia, pediatria, ortopedia e ultrassonografias, conforme levantamento citado na investigação.
Em Bela Vista, investigadores apontam que teria havido tentativa de reprodução do mesmo modelo de contratação utilizado em Nioaque. A prefeitura, contudo, informou que a empresa mencionada na investigação não possuiu contrato nem recebeu pagamentos do município.
O caso expõe uma das faces mais graves da corrupção na área da saúde: o uso de documentos aparentemente oficiais para transformar atendimentos inexistentes em despesas públicas.
A própria operação recebeu o nome de Auditus porque a investigação começou a partir de indícios relacionados à simulação de exames auditivos e posteriormente identificou suspeitas envolvendo diferentes tipos de consultas, exames e procedimentos.
Agora, com cinco prisões e dezenas de mandados cumpridos, o Ministério Público busca dimensionar toda a extensão do esquema e identificar a participação de cada envolvido. A investigação segue em andamento, e os presos são suspeitos, não condenados, até eventual decisão judicial definitiva.0