Segunda, 28 de Setembro de 2026

Saúde de Campo Grande expõe falta de medicamentos, filas e gargalos em audiência na Câmara

Prestação de contas do segundo quadrimestre revelou desafios na rede municipal, enquanto prefeitura promete medidas para transporte de pacientes, manutenção de equipamentos e abastecimento

28/09/2026 às 14h40
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A rede pública de saúde de Campo Grande ainda enfrenta uma série de gargalos que chegam diretamente ao atendimento da população. Falta de medicamentos, demora para cirurgias eletivas, problemas de limpeza, ausência de transporte entre unidades e hospitais e dificuldades na manutenção de equipamentos foram alguns dos pontos que dominaram a audiência pública realizada nesta segunda-feira (28), na Câmara Municipal.

Durante a prestação de contas do segundo quadrimestre de 2026, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) apresentou os números da rede e respondeu a questionamentos sobre serviços que seguem pressionando o sistema. O relatório apresentado reúne informações de maio a agosto e faz parte da prestação obrigatória realizada a cada quatro meses.

Um dos problemas levantados foi o abastecimento de medicamentos. Segundo as informações apresentadas na audiência, parte das empresas contratadas não estaria cumprindo os prazos de entrega, levando a Prefeitura a recorrer à Justiça para tentar regularizar o fornecimento.

O cenário se soma às dificuldades enfrentadas para garantir a realização de procedimentos eletivos. As cirurgias continuam entre os pontos de maior pressão sobre a rede, inclusive com casos que acabam sendo judicializados. A estratégia apresentada para reduzir a demanda inclui o programa Vira CG, enquanto a Secretaria deverá encaminhar posteriormente um balanço dos procedimentos realizados e dos recursos utilizados.

Santa Casa entra no centro das discussões

A situação da Santa Casa também ocupou espaço importante na audiência, em meio à intervenção no hospital após a investigação que apura suspeitas envolvendo recursos da instituição.

A Prefeitura e o Governo de Mato Grosso do Sul pactuaram um aporte de R$ 4 milhões para a compra de insumos, enquanto a Secretaria Municipal de Saúde informou que deverá iniciar o alinhamento com a equipe responsável pela intervenção.

A Santa Casa enfrenta ainda reflexos da suspensão temporária de determinados procedimentos. Em setembro, o hospital comunicou à Sesau a interrupção de cirurgias cardíacas pediátricas congênitas eletivas devido à falta de equipe médica especializada. Na ocasião, a instituição informou que quatro pacientes aguardavam o procedimento e que a assistência pediátrica permanecia ativa.

Durante a audiência, também foi solicitado ao Ministério da Saúde que seja realizada uma auditoria nos recursos destinados à instituição, diante da dimensão dos fatos investigados.

Falta de ambulância vira outro gargalo

Outro problema apontado envolve a transferência de pacientes das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para hospitais. Mesmo quando surge uma vaga, a falta de ambulância pode impedir que o paciente seja encaminhado.

A Sesau informou que trabalha na contratação de um serviço específico de transporte para realizar esse deslocamento. A medida busca preencher uma lacuna existente atualmente na estrutura municipal.

A gestão também anunciou a criação de um serviço de engenharia clínica, responsável pela assistência técnica e manutenção do parque tecnológico das unidades de saúde. A iniciativa deverá estabelecer um cronograma para manutenção dos equipamentos, incluindo estruturas utilizadas nos atendimentos odontológicos.

Limpeza das unidades também foi questionada

A qualidade da limpeza nas unidades de saúde foi outro ponto de cobrança. Durante a audiência, foram relatados problemas na execução do contrato atual, incluindo falta de materiais e questionamentos sobre o número mínimo de profissionais previsto.

Segundo a Secretaria, a Prefeitura enfrenta entraves jurídicos relacionados ao contrato, depois que a empresa responsável recorreu à Justiça para suspender uma nova licitação. A situação, conforme explicado durante o debate, tem limitado a possibilidade de substituição imediata do serviço.

Frota do Samu entra na prestação de contas

A utilização de recursos relacionados à frota do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) também foi questionada a partir de apontamentos de auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus).

O debate envolveu R$ 345 mil utilizados em veículos que não pertenciam à frota do Samu. A Secretaria informou que uma auditoria interna identificou a necessidade de devolução de recursos e que medidas estão sendo discutidas para corrigir problemas administrativos.

Segundo os dados apresentados, a situação da frota teria apresentado melhora significativa, com os veículos em operação, enquanto a gestão afirma estar trabalhando na correção dos problemas identificados.

Rede tem 214 estabelecimentos e quase 8 mil servidores

Apesar dos problemas apontados, os números apresentados pela Sesau mostram a dimensão da estrutura municipal. A rede vinculada ao SUS conta com 214 estabelecimentos e 7.888 servidores.

Na Atenção Primária, foram registrados 2,1 milhões de atendimentos no período analisado. O dado representa crescimento de 4,8% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Outro número apresentado durante a prestação de contas foi o percentual de recursos destinados à saúde. O município informou ter aplicado 24,5% das receitas municipais na área, acima do mínimo constitucional de 15% estabelecido para os municípios.

A audiência serviu, assim, para colocar lado a lado o tamanho da estrutura mantida pelo município e os problemas que ainda comprometem parte da prestação do serviço. Medicamentos, cirurgias, transporte, equipamentos, limpeza e atendimento hospitalar permanecem entre os principais pontos que exigem respostas da gestão nos próximos meses.

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