
Mato Grosso do Sul vive uma contradição na segurança pública: enquanto os principais indicadores de crimes patrimoniais apresentam redução nos últimos anos, o Estado continua enfrentando uma pressão crescente de organizações criminosas que usam as fronteiras com Paraguai e Bolívia como parte de suas rotas, além de episódios graves de violência contra mulheres. É nesse cenário que o governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, tem concentrado uma parcela importante das ações de sua gestão.
Os dados oficiais da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que, entre janeiro e abril de 2023 e o mesmo período de 2026, os roubos em vias públicas caíram 57,54%, enquanto os furtos recuaram 23,90%. Os homicídios dolosos tiveram redução de 8,98%, passando de 145 para 140 registros. Ao mesmo tempo, o combate ao tráfico ganhou intensidade: as apreensões de drogas praticamente dobraram, com alta de 99,5% no período.
O cenário, porém, não elimina os desafios. O monitor oficial da violência contra a mulher contabilizava 27 feminicídios em Mato Grosso do Sul até 20 de setembro de 2026, mantendo esse crime entre as principais preocupações da área de segurança.
É justamente diante dessa combinação de desafios que o governo ampliou a estrutura das forças policiais.
O principal reforço anunciado neste ano foi a entrega de 522 novas viaturas, 624 pistolas Glock e 970 coletes balísticos, em um investimento de R$ 176,1 milhões. A estrutura foi distribuída aos 79 municípios e contempla Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Perícia Oficial.
A renovação da frota representa uma tentativa de dar às equipes condições mais adequadas para o patrulhamento cotidiano, operações contra organizações criminosas e atendimento de ocorrências.
Campo Grande recebeu a maior parcela, com 111 veículos: 64 para a PM, 30 para a Polícia Civil, 14 para os Bombeiros e três para a Perícia. Dourados ficou com 19, enquanto Corumbá recebeu 14. Coxim recebeu nove; Aquidauana, Naviraí e Três Lagoas, oito cada; Nova Andradina e Ponta Porã, sete; e Jardim, seis.
A distribuição levou em conta cidades-polo, municípios de fronteira, corredores rodoviários e localidades que concentram serviços policiais para atender também cidades vizinhas.
Riedel resume a posição estratégica do Estado com uma frase que passou a marcar seu discurso na área: “Somos, de certa forma, um escudo para o Brasil”. A declaração está relacionada à posição de Mato Grosso do Sul nas rotas utilizadas pelo tráfico e pelo crime organizado.
O secretário nacional de Segurança Pública, Francisco Lucas Costa Veloso, também destacou que a localização entre Paraguai e Bolívia transforma o Estado em um corredor relevante para o tráfico de drogas e exige integração permanente entre União, Estado e municípios.
A geografia é um dos principais fatores que moldam a política de segurança de Mato Grosso do Sul. O Estado possui fronteiras internacionais com Paraguai e Bolívia e é cortado por importantes corredores rodoviários.
Por isso, a estratégia adotada pela gestão Riedel não se limita ao policiamento urbano. O governo tem reforçado estruturas especializadas, como o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), além de apostar em inteligência e operações integradas para interceptar drogas, armas e outros produtos ilícitos antes que cheguem aos grandes centros.
Os resultados de apreensão de drogas ajudam a dimensionar essa frente. Segundo a Sejusp, foram apreendidos 161.757,82 quilos de drogas entre janeiro e abril de 2026, contra 81.079,85 quilos no mesmo período de 2023.
A lógica é atacar as organizações criminosas na origem e nas rotas de circulação, em vez de concentrar a resposta apenas nas cidades onde os crimes chegam ao consumidor final.
A estratégia também passa pela ampliação do efetivo. Em 2025, 427 novos soldados da Polícia Militar concluíram a formação. O Estado também realizou concurso para a Polícia Civil, com previsão de incorporação de cerca de 400 novos agentes, além de processo seletivo do Corpo de Bombeiros que incorporou outros 250 servidores.
Riedel ainda confirmou uma nova turma para formação de soldados da PM em 2027, sinalizando a intenção de manter a reposição de efetivo independentemente do resultado das eleições.
A aposta é combinar homens nas ruas com equipamentos, tecnologia e inteligência — uma estratégia que o governo apresenta como política permanente de segurança pública.
Outro eixo que ganhou atenção durante a gestão é o enfrentamento à violência doméstica e ao feminicídio.
Em 2026, a Polícia Civil atualizou o protocolo de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica, familiar e de gênero. As novas regras incluem avaliação de risco, solicitação de medidas protetivas, coleta de provas, atendimento prioritário e monitoramento de casos considerados de alto risco.
O Estado também mantém o Protege MS, programa criado para integrar diferentes órgãos na prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres. A política reúne ações de proteção, atendimento, capacitação, prevenção e responsabilização de agressores.
Na Polícia Militar, o programa Mulher Segura (Promuse) atua no acompanhamento de vítimas, fiscalização de medidas protetivas e realização de visitas técnicas. Em março deste ano, 200 policiais foram capacitados para reforçar esse tipo de atendimento.
Ao defender a renovação dos equipamentos, Riedel faz referência ao período em que, segundo ele, as forças policiais enfrentavam veículos defasados, falta de armamentos e coletes balísticos vencidos.
“Esse equipamento é ferramenta de trabalho, e nós não vamos deixar o Estado voltar àquela época”, afirmou.
A estratégia apresentada pelo governador combina, portanto, três frentes: mais estrutura para as forças policiais, reforço de efetivo e integração para combater o crime organizado, especialmente nas regiões de fronteira.
Em um Estado que funciona como rota para o tráfico internacional e que ainda enfrenta episódios graves de violência contra mulheres, a segurança se tornou um dos principais temas da disputa eleitoral de 2026. Riedel tenta apresentar os investimentos realizados como parte de uma política de continuidade, enquanto os demais candidatos também colocam fronteira, facções, feminicídio e estrutura policial entre os principais desafios para o próximo governo.